Mais afeto com os loucos

Rodrigo de Souza Leão , Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - Tudo bem, eu tenho paranóia: sou esquizofrênico. Mas ser tratado com descaso é o fim da picada. Tenho minha opinião sobre a forma como a loucura vem sendo tratada em Caminho das Índias. Confesso que não sou fã de novela. Nenhuma novela de televisão me atrai. Nenhum caminho me levará à Índia. (Até atores têm restrições a esse formato televisivo e autores conscientes sabem que estão tratando com um produto cultural que às vezes não atinge seus objetivos). Portanto, vou logo dizendo que não tenho nada contra Caminho das Índias, tendo tudo contra. Explico os prós e os contras a partir de minha experiência.

Fui internado apenas duas vezes, ainda bem, porque o eufemismo clínica é um lugar no qual não me adequo. Na verdade, o que existem são os hospícios. Lugares onde todos os loucos estão misturados. Todo mundo junto: alcoólatras, esquizofrênicos, bipolares, dependentes químicos, etc. Ou seja, louco é tratado como gado. Todos iguais, quando até os psiquiatras sabem que cada um é especial. Cada loucura pode se manifestar de forma diferente, dependendo do caso.

As condições da maioria das clínicas não são boas. Em algumas, vários internos são amontoados no mesmo quarto. O louco em surto costuma ser amarrado à cama, recebendo apenas tratamento clínico, sem nenhum afeto.

A comida, nos hospícios, é feita para muitos. A qualidade é péssima. Geralmente, um café da manhã suspeito. Café ralo. Leite aguado. Pão com uma ida de manteiga e só. Estou falando de uma clínica, mas prefiro dizer mesmo hospício. P-a-r-t-i-c-u-l-a-r. Pago com dinheiro do plano de saúde. O almoço é uma parte não comível do frango e raramente tem boi ralado (carne moída), que muitas vezes é motivo de festa. O que há de bom é a goiabada, que não é cascão para não entalar e matar alguém por asfixia. De vez em quando aparece um bolo de fubá, perfeito para quebrar dentes.

Brincadeiras à parte, o que acontece nesses lugares é puro desrespeito ao doente mental. Como se ele fosse um cidadão de segunda classe. Não estou querendo filé nas refeições. Não estou pretendendo que cada doente seja tratado como um rei. Quero apenas que exista mais afeto com os loucos. Porque o que acontece geralmente vão dizer que há nutricionistas, vão dizer que há psicólogos é uma forma de lidar com a doença em que não importa muito o doente em si. Falo como doente. Não como vítima. Ninguém tem culpa, mas eu também não tenho culpa.

É necessário que façam mudanças. Isso não está sendo retratado na novela. Tudo bem que é ficção. Mas a vida imita a arte e o hospício do Dr. Castanho foge bastante da realidade. Não tenho nada contra Glória Perez, muito pelo contrário. Ela tem um valor imenso por tratar do tema, mas deve estar sendo assessorada por psicólogos e psiquiatras que veem apenas um lado da questão. Nise da Silvera é única. Morava no local onde trabalhava. Comia lá. Dormia lá. É um exemplo que deveria ter sido contemplado com o Nobel pelo que fez. Também não quero dizer que todos os psiquiatras são picaretas. Pelo contrário, são pessoas dedicadas. Delicadas. Preciosas. Amo os psiquiatras. Mas, hoje em dia, não existe mais uma pessoa do porte da Dra. Nise na luta.

Que fique bem claro: não sou contra os manicômios. Ou hospícios. Ou clínicas. Como queiram chamar, são os lugares para onde o louco é levado quando está em surto ou quando a doença é crônica.

Existe também um aspecto que só diz respeito a mim, como artista, que gostaria de ver enfocado aqui: existem os donos da loucura no Brasil. Existe o que é valorizado artisticamente pelo filtro de psiquiatras, etc. O louco folclórico. Que se veste com roupas caricatas. Que faz trejeitos e tiques e tem toda uma veia quase cômica e desvinculada de qualquer realidade. É mais valorizado do que alguém que tem um vínculo maior com o real. Mas isso não é a questão central de minha prédica.

Louco tem de ser pobre? Isso está sendo muito bem refletido no personagem Tarso, representado com maestria por Bruno Gagliasso. Ponto para Glória Perez. É rico. Não consegue se tratar. Esse conflito é muito comum. Eu também rejeitava tratamento, apesar de meu pai ser médico e ter estudado psiquiatria para cuidar de mim e do meu irmão, que é bipolar. Portanto, não estou aqui para fazer um panegírico contra a obra de Glória Perez. Ela acertou quando colocou o Tarso vestindo roupas normais. Sentindo frio. Tendo uma vida normal até entrar em crise. Mas errou muito quando colocou o esquizofrênico dando dois tiros no outro personagem que ele achava que o estava perseguindo. Tudo bem que a autora quis dizer que um esquizofrênico sem tratamento pode até matar. Todo mundo pode matar. O que mais se vê nos dias de hoje é gente matando gente. Gente dita normal matando gente dita normal. Será que o povo que assiste televisão (não quero subestimar ninguém, mas venhamos e convenhamos) vai entender que se tratava de um ser humano descontrolado e sem remédios? Será que remédios, apenas, teriam evitado a agressão? Se as pessoas já tinham preconceito contra os doentes mentais, vão ter mais preconceito agora.

Voltando aos donos da loucura, falo mais especificamente de instituições psiquiátricas governamentais que só apoiam as manifestações artísticas feitas por elas mesmas. Falo do Pinel. Não tenho nada contra o instituto, mas tenho ressalvas a fazer ao tratamento que é dado a quem não se trata lá. Eu lancei, no ano passado, o livro Todos os cachorros são azuis (Editora 7Letras). O opúsculo trata especificamente de questões ligadas à loucura, que não foram superadas, e estão sendo tratadas como tal. É um romance de oitenta páginas, que faz um relato de minha experiência com a doença e a minha vida esquizofrênica (muitos fatos narrados no livro, acontecem também na novela). Não sou Freud, Foucault, Lacan. Sou formado em Jornalismo. Coisa de que me orgulho muito. Não sou ninguém. Não sou filho de ninguém. Só de um grande homem e de uma mulher maior ainda. Mas, não sei por que o Pinel não aceitou receber dez exemplares que queria enviar para seus psiquiatras e psicólogos. Eles só apoiam os loucos de lá?

Falei com a Petrobras. Meu livro ganhou uma bolsa da empresa. Eles entraram em contato com o instituto, que criou uma burocracia tão grande para receber os livros, que a Petrobras desistiu de enviá-los. Coisa simples. Por respeitar o trabalho do Pinel é que eu queria meu trabalho lá. Por ter sido bem tratado quando, certa vez, procurei atendimento, gostaria que tivessem alguns exemplares. Era uma doação. Doação de vida. Algo que deveria interessá-los, mas não interessa, porque sou um louco que critica.

Sempre quis pintar. Não tenho qualquer pretensão de ser um Van Gogh. Sei que o meu lugar é na literatura. Mas gosto de artes plásticas e queria entender mais do assunto. Procurei o Instituto de Psiquiatria da UFRJ (IPUB), não havia vagas. Não sou pobre. Entendo que os menos favorecidos necessitem mais, porém ganho mil reais por mês e isso não me faz rico. A minha sorte é que com a bolsa da Petrobras posso pagar o curso no Parque Lage.

Caminho das Índias mostra uma instituição da loucura, onde todos são felizes debaixo de um céu azul. Azul até demais. Circula uma brisa química por lá.

Quando afirmei (em meu livro) que a morte é uma novela da Globo, estava certo ou errado? Eu não sei. Eu não tenho nada a dizer a não ser que este nada foi para você que eu disse , disse Freud.

Rodrigo é autor de 'Todos os cachorros são azuis' (2008/Editora 7 letras), romance ambientado num hospício.