Gesto promissor

Marcelo Baumann Burgos *, Jornal do Brasil

RIO - Faz tempo que o Rio de Janeiro tem tratado muito mal à população da favela, mas a situação tem piorado.

É verdade que as favelas têm sido contempladas com obras públicas, de menor ou maior envergadura, e que sua população tem tido crescente acesso à escola e a outros serviços públicos, mas quanto mais a favela se aproxima da cidade do ponto de vista dos equipamentos urbanos, mais ela é segregada, pesando contra ela o pior insulto, a de principal responsável pela violência da cidade. Os muros vêm causando tanta indignação e apreensão, porque conferem materialidade a esse sentimento difuso, presente na opinião corrente da cidade, de separação e isolamento, a fim de melhor controle.

A favela já foi tratada como câncer , lepra , e outras imagens caras à concepção higienista, as quais serviam de justificativa para sua remoção, ou como pretexto para submeter sua população a um controle totalitário. Nos anos de 1940, os parques proletários, construídos pelo Governo Vargas para egressos de favelas, chegavam a ter toque de recolher e sermões civilizatórios. Nos anos de 1950/60, as metáforas da doença dão lugar ao que Janice Perlman chamou de mito da marginalidade . Percebidos como estranhos à cultura da cidade, aos moradores das favelas se atribuía uma série de qualidades negativas, como a de preguiçosos, promíscuos, resignados, fatalistas, e, ainda por cima, tendencialmente afeitos ao radicalismo político, o que faria deles presa fácil do populismo e do comunismo.

Quarenta anos depois, a constatação que não deixa de ser surpreendente é a de que ao invés de avançarmos na integração da população da favela à cidade, retrocedemos. Hoje, pesa contra a favela a ideia de que ela constitui um ambiente promotor da cultura da violência, onde se formaria uma subjetividade diferente do restante da cidade, marcada por um comportamento potencialmente hostil à ordem e à lei; e a maior evidência disso seriam os traficantes. Nesses tempos de revigoramento do determinismo ecológico que nem o século 19 foi capaz de insculpir com tanta força os traficantes seriam como plantas nativas da favela e a expressão mais aguda da cultura da violência. Por isso, hoje, mais do que nunca, todo morador da favela é, ainda que veladamente, considerado suspeito até prova em contrário. Pergunte a um jovem se ele diz morar em favela numa entrevista de emprego. Justifica-se, assim, a metáfora da guerra. Aonde o caminho vai nos levar?

Felizmente, a energia cívica do Rio, embora adormecida, não morreu. Prova disso é a iniciativa de moradores de Copacabana e das Comunidades dos Tabajaras/Cabritos, que, há muito, irmanados em projetos comuns, na Praça do Bairro Peixoto, e na Escola de Samba Villa Rica, resolveram se unir em torno de um fraternal abraço à favela. O evento, que vai ocorrer hoje, ao longo de todo o dia, tem tudo para ser um marco transformador da relação da cidade com a favela, valorizando a enorme potencialidade comunitária da favela, e recuperando e resignificando o impulso solidário e democrático da cidade do Rio.

* Sociólogo