Egoísmo leva a abandono dos mortos

Joel Birman*, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - Precisamos homenagear as pessoas que nos formaram e que já se foram

O que nos caracteriza é a relação com a nossa finitude, definida pela nosa morte. Sabemos que nossa vida é limitada, mesmo apesar de raramente pensarmos nisso. Esse pensamento vem à tona através de determinados signos, como o medo de adoecer e as fantasias de morte, mesmo quando somos acometidos por doenças banais, como uma gripe, por exemplo, que nos mostra toda a nossa fragilidade. As situações mórbidas, como a depressão e a melancolia estão muitas vezes ligadas ao medo da morte.

Socialmente, organizou-se o espaço dos cemitérios, que inicialmente eram restritos ao âmbito religioso. Com a modernização, eles saíram dessa esfera e, a partir da medicina moderna e do avanço da saúde pública, se deu a separação definitiva do espaço da morte do sagrado passando à administração pública. Surgiu, então, uma série de rituais em que as pessoas deveria, regularmente, sagrar seus mortos, notadamente na data de Finados, que foi criada pelo Estado.

A experiência de se defrontar com a perda de um ente querido, alguém próximo nos traz um processo de luto, conceito descrito pela primeira vez na psicanálise por Sigmund Freud (1865-1939). Esse paradigma pode ser estendido também à perda de um ideal, de um emprego, de um lugar social.

Aí, somos obrigados a fazer um trabalho interior que nem sempre conseguimos concluir. Nesse caso, acontece o luto patológico, quando não logramos êxito em nos desapegar efetivamente do objeto ou enterrar de vez nossos mortos. Permanecemos então num estado de melancolia, que nada mais é que o processo de luto incompleto.

O abandono das sepulturas nos cemitérios pelos particulares, pelas pessoas que deveriam cuidar e nem sequer aparecem para estar com seus mortos mostra uma mudança na relação dos vivos com os que já se foram.

Essa negação, recusa, desmazelo revela um problema simbólico complicado. Precisamos do ritual de homenagear nossos mortos, nossos pais, avós, tios, irmãos mais velhos, que foram as pessoas que nos formaram. A quebra da continuidade dessas tradições deixa transparecer o nível de individualismo e narcisismo violento que impera na sociedade contemporânea.

Se hoje só se valoriza a festa, o alto astral nessas afirmações dionisíacas do dia a dia, isso acaba implicando na recusa de tudo que se relacione à morte, ou seja, uma tendência que já é natural do ser humano, como vimos no início deste texto, se mostra cada vez mais forte.

* Psicanalista: Professor do Instituto de Psicologia da UFRJ e do Instituto de Medicina da Uerj, em depoimento ao 'JB'