Assim caminha a humanidade

Dom Antonio Angusto Dias Duarte *, Jornal do Brasil

RIO - O século 21 não pode continuar dando passos na direção da destruição da pessoa humana e da violação dos seus direitos fundamentais, sobretudo na direção do desprezo ideológico da mulher e da sua possível maternidade.

É sempre inesquecível a figura da mãe abraçando o seu filho com uma touca sobre a cabeça para esconder aquele tecido esponjoso que ocupa o lugar da parte do cérebro ausente, conversando com ele, acariciando-o, demonstrando todo o seu amor até que a morte os separa.

Há passos que a humanidade deve dar no início desse novo milênio depois que Deus quis ser embrião, feto e bebê recém-nascido e já perseguido para ser morto. Jesus Cristo foi muito claro a respeito do primeiro passo a ser dado, quando enunciou a máxima do acolhimento humano.

Deixai vir a Mim estas criancinhas e não as impeçais (Mt. 19,14), principalmente de viver com dignidade, mesmo que estejam doentes de forma irreversível.

Acrescentou a este passo inicial o seguinte: Guardai-vos de menosprezar um só destes pequeninos (Mt. 18,10), e a interrupção da gravidez de uma criança com anencefalia, isto é, o aborto diretamente provocado nesse ser inocente e indefeso, é um enorme desprezo não da pessoa humana, mas do seu Criador, do próprio Deus.

O terceiro passo vem de um sucessor de Pedro, o saudoso e incansável defensor da vida das crianças, João Paulo II, no seu apremiante documento em favor do valor e da inviolabilidade da vida humana, a Encíclica Evangelho da Vida: Não pode haver verdadeira democracia, se não é reconhecida a dignidade de cada pessoa e não se respeitam os seus direitos. Nem pode haver verdadeira paz se não se defende e promove a vida (...) onde os direitos do homem são realmente professados e publicamente reconhecidos e defendidos, a paz torna-se a atmosfera feliz e geradora de convivência social (n.101).

A defesa da vida desde a concepção até o seu término natural é, sem dúvida nenhuma, uma ação de elevada cidadania, de nobre valor social e profundamente democrática, além de ser de uma riqueza religiosa muito apreciada.

O quarto passo tem a força e o impulso procedente dos passos anteriormente citados, e exige de quem o dá muita coragem e sentido de compromisso com a dignidade humana. É o passo que rapazes e moças, namorados e namoradas, noivos e noivas, esposos e esposas devem dar na formação das suas personalidades e da sua sexualidade. Essas pessoas devem assumir o compromisso de não só se informarem, mas se formarem e serem na sociedade atual promotores da paternidade e da maternidade responsáveis e propagandistas da sexualidade realmente humana, integrada, alegremente vivida e amorosamente aceita na vida matrimonial como entrega mútua e acolhimento dos filhos.

O último passo que deve dar a humanidade para progredir é aquele que, inspirado por Jesus Cristo, torna as pessoas vencedoras no amor e na verdade. É o passo do destemor, já que Cristo disse que não se deve ter medo, pois Ele venceu o mundo, e que se deve ir por todo o mundo semeando a verdade e ensinando a fazer o bem.

Sem temor e com muito amor no coração, é necessário acolher com solidariedade e com fraternidade cristã as mães com filhos portadores da anencefalia, reuni-las em associações onde elas podem ter respaldo médico, psicológico e jurídico para valer os seus direitos e cumprir assim os seus deveres maternos com mais segurança e paz. Sem temor e com amor é preciso ajudá-las a resistir às pressões daquelas mulheres que, movidas por ideias enganosas e bem financiadas, querem que elas assinem atestados de óbitos dos seus filhos, e não sintam o orgulho de terem dado a eles o calor e a luz de um lar pacífico e alegre, mesmo com as dores ordinárias da vida.

Se a anencefalia é uma anomalia irreversível até este momento da ciência médica, o que pode ser certa e imediatamente reversível é a conversão das inteligências e da vontade política, para que seja proclamada e reconhecida a dignidade da mulher-mãe e o direito de uma pessoa enferma receber a acolhida dos homens nessa terra que ainda é humana.

Promover a cultura da vida na nossa sociedade brasileira é uma consequência de compromissos assumidos por jovens e adultos, homens e mulheres, políticos e governantes, que querem que no Brasil, e desde o Brasil, surjam passos firmes e progressivos para que a humanidade evolua para uma civilização do amor e da paz.

* Dom Antonio Angusto Dias Duarte é

bispo auxiliar da Arquidiocese do Rio