Por mais qualidade nas relações

Regina Moura *, Jornal do Brasil

RIO - Dos dados divulgados na pesquisa do Ministério da Saúde, dois poderão merecer mais atenção e empenho: as mulheres de qualquer idade, e os homens com mais de 50 anos, que estão mais expostos às doenças de transmissão sexual e à Aids.

A pesquisa revelou que, embora efetivas (elevada taxa de indivíduos de baixa escolaridade e com conhecimentos corretos sobre as formas de transmissão da Aids), as campanhas de informação não foram suficientes para modificar as atitudes e práticas de proteção e de promoção do autocuidado entre as mulheres, mais do que entre os homens e, principalmente, entre a população com mais de 50 anos. E por que isso ocorre? Quando as pessoas maiores de 50 anos iniciaram a vida sexual, se houvesse alguma preocupação seria em relação às doenças venéreas principalmente sífilis e gonorréia pois, naquela época, a Aids era coisa de viado . Além disso, mulher direita não usa camisinha, e se usar é porque tem culpa no cartório . Sugerir ao companheiro/marido o uso do preservativo era o mesmo que afirmar que ele estava sendo traído. O que observamos entre os pacientes que frequentam o Grupo Com Vida (grupo de apoio às pessoas vivendo com HIV-Aids do Hospital Universitário Pedro Ernesto - Hupe) e no atendimento ambulatorial é que, nas relações estáveis, independentemente do tempo de união ou do grau de confiança entre os parceiros, o uso do preservativo é naturalmente abolido. Mesmo conscientes da possibilidade de relações extraconjugais por seus companheiros/maridos, as mulheres continuam tendo o mesmo comportamento de negação da camisinha, para demonstrar fidelidade. É curioso que, ao oferecermos preservativos nas atividades de educação em saúde que realizamos, muitas mulheres se recusam a recebê-lo Não preciso: eu só transo com o meu marido .

Além do motivo cultural (não ter iniciado a vida sexual na era da Aids ), os homens com mais de 50 anos recusam a camisinha por dois principais motivos: medo de perder a ereção e crença de que perderá a sensibilidade do pênis. Associando esses temores à questão comum aos homens dessa idade, isto é, sentirem-se motivados para relaçãoes extraconjugais, suas companheiras/esposas, mesmo cumprindo fielmente o seu dever conjugal , terão um comportamento de risco em relação à Aids. Ou mudamos a qualidade das relações entre homens e mulheres, ou permaneceremos com os mesmos índices de infecção.

* Regina Moura é docente do Departamento de Medicina Integral, Familiar e Comunitária da Faculdade de Ciências Médicas da Uerj