Dilma desafia a oposição

Villas-Bôas Corrêa *, Jornal do Brasil

RIO - Tratando-se de uma senhora, a gente acredita que foi por acaso. Mas, a dupla coincidência instiga suspeita. Enquanto a secretária de imprensa da Presidência anuncia que o presidente Lula, a partir do dia 7 de julho, está oferecendo aos jornais a nova criação da sua equipe de especialistas, na sua iniciação como jornalista com um artigo com assinatura presidencial, a ministra-candidata Dilma Rousseff brilhava em Brasília, com o seu desembaraçado desempenho no balanço do Programa de Aceleração do Crescimento, uma das suas mais poderosas armas para a campanha, virtualmente iniciada há vários meses nas viagens com o presidente Lula para os comícios relâmpagos nas visitas às obras do PAC.

Dilma teve uma atuação de veterana. De saída, como manda o figurino, trocou elogios públicos com o governador José Roberto Arruda (DEM), de um partido adversário que não forçará a barra para desagradar o presidente Lula e muito menos a sua eventual sucessora.

No segundo ato, a ministra Dilma subiu no palanque e discursou para cerca de meio milhar de pessoas, o que não chega a ser multidão, mas é um razoável auditório para uma campanha semiclandestina. E para imprimir o tom adequado, a ministra deu ao seu desembaraçado improviso o toque de comício: Os compromissos que o presidente faz saem do coração . E na emoção, embalou: Do coração de quem viveu a vida que vocês vivem, que conhece as dificuldades pelas quais vocês passam, que sabe perfeitamente o que é não ter onde morar, o que é não ter esgoto, o que é não ter água tratada . Como em desfile de escola de samba, em cada bloco sambou uma ala dos êxitos do governo Lula, com a preciosa ajuda da ministra-candidata: o Bolsa Família que mata a fome, o Bolsa Escola que prepara a mocidade para a luta pelo emprego, o Minha Casa Minha Vida, menina dos olhos da candidata, que promete construir 1 milhão de residências sem data para bater o último prego.

A ministra Dilma não está sendo presunçosa nem ingrata. Sabe que o presidente é a escora da sua candidatura, que sem ele desabaria com a dispersão do PT, a legenda que amarga a sua exclusão da lista de candidatos, e dos demais aliados que iriam cuidar da sobrevivência com candidatura própria ou em alianças.

Os próximos dias confirmarão a aceleração da pré-campanha, que abandonará os disfarces pelo caminho, com as juras de que Lula e Dilma visitam o andamento das obras do PAC. E, com a sobrecarga das obras de emergência para o socorro dos milhares que perderam tudo com as enchentes do Norte, Nordeste e do Sul, além da seca que castiga as áreas plantadas do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.

A agenda do presidente registra compromissos pelos quatro cantos do mundo. Mas, no tom de despedida do presidente que mais viagens fez pelo exterior na história deste país.

Se emplacar as condecorações que faltam na sua valiosa coleção e conseguir fechar acordos do nosso interesse, não terá perdido o seu tempo nem desperdiçado gasolina.

Mas, quando a campanha entrar na reta oficial, a presença de Lula será absolutamente indispensável para a transferência de votos para a candidata improvisada e que vem dando conta do recado,

A ministra está embalada e confiante no tratamento do câncer linfático que a obriga a sessões de quimioterapia, já nas derradeiras aplicações.

Os problemas da oposição são muitos, mas não insolúveis. Mas, ela ainda não entrou em campo. Ao contrário do governo, tem excesso de candidatos. Todos à Presidência, nenhum a vice.

* repórter político do JB