Desemprego é vilão da vez na inadimplência

José Ronoel Piccin *, Jornal do Brasil

RIO - Ogrande ponto da inadimplência é o desemprego, um dos grandes males de uma recessão como a atual. Antes da turbulência, o problema já existia, mas agora a questão desenfreou.

Nós vemos que, atualmente, quem está desempregado demora até um ano para voltar ao mercado, e as classes C, D e E são as mais atingidas, uma vez que não costumam ter reservas. No Brasil, por incrível que pareça, não são tão mostrados, em geral, aqueles que estão na penúria, diferente da situação no exterior. Na Alemanha ou na Itália, por exemplo, podemos ver fotos de pessoas em filas para comerem em instituições. Aqui também acontece isso, e é um resultado do desemprego. As pessoas se preocupam em comer antes de pensar nas dívidas.

Além disso, o brasileiro não é muito acostumado com a poupança, ele toma emprestado mas não faz muita economia. Dessa forma, quando há um aperto, apela para o cartão de crédito ou para cheques sem fundo. Como as classes C, D e E, que sofrem mais com o desemprego, não têm tanto acesso a cartões de crédito, acabam por recorrer ao cheque sem fundo.

As perspectivas são de que a situação continue desfavorável, com leves melhorias no nível da inadimplência até o fim do ano. Embora haja um processo de queda mensal, o índice vai acumulando, e isso só deve arrefecer no decorrer de 2010.

O cartão de crédito, que ainda lidera o ranking da inadimplência, sempre foi o primeiro classificado, e trata-se de um panorama proporcional. Se checarmos os números antes da recessão e agora, podemos concluir que a proporção de não cumprimento entre as diversas modalidades é relativamente a mesma. Se o cartão sempre teve alto índice de inadimplência, com a crise financeira a situação aperta da mesma maneira ou até mais.

Trata-se de um vício. Sabemos que o cartão de crédito deve ser usado a nosso favor, e não contra nós. Ao usar o cartão, passam 40 dias e paga-se a dívida. Mas as pessoas têm tendência a pagar o valor mínimo, deixar atrasar, depois pagar o mínimo novamente. E esquecem que os juros do cartão estão em torno de 10% ao mês. É mais um exemplo de despreparo em relação ao planejamento econômico característico do brasileiro.

Os juros bancários não diminuem por causa da inadimplência. A taxa básica de juros Selic influencia muito menos. A mesma coisa acontece com os preços ao consumidor. O custo da inadimplência já está embutido nos produtos vendidos a prazo, então, em um momento como o atual momento, eles só tendem a crescer.

Hoje, em nosso país, a educação das pessoas em relação às suas finanças pessoais é muito pequena. É algo que deveria vir desde muito cedo, as escolas primárias deveriam ter uma disciplina que ensinasse as pessoas a mexerem com o dinheiro desde crianças, como acontece lá fora.

* José Ronoel Piccin é presidente do Conselho Administrativo da Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac).