Emergentes em diálogo aberto

Editorial, Jornal do Brasil

RIO - A primeira reunião oficial do grupo que reúne Brasil, Índia, China e Rússia, realizada esta semana na cidade russa de Ecaterimburgo, serviu como ponto de partida para o diálogo maduro entre quatro grandes atores do cenário mundial. Os observadores mais críticos podem dizer que faltaram decisões concretas acerca de temas polêmicos, como a troca do dólar nas negociações comerciais. Mas pelo menos dois pontos de extrema relevância foram enfatizados: a disposição de atuar conjuntamente na revisão do sistema financeiro internacional e o comprometimento com a mudança na Organização das Nações Unidas na qual Brasil e Índia deverão ter papel mais condizente com a posição de liderança regional que vêm assumindo.

Mesmo em tempos de crise global, há indicadores claros da ascendência do Bric (sigla cunhada em 2001 pelo economista- chefe do banco de investimentos Goldman Sachs, Jim O'Neill, para definir o quarteto de emergentes). O crescimento médio do grupo em 2009 será de 4,8%, contra -1,1% da economia mundial. Aliás, o Bric só não apresenta números ainda mais vistosos neste aspecto devido às fragilidades do modelo de desenvolvimento russo, fortemente dependente das exportações de commodities. Para este ano, prevê-se uma contracção do Produto Interno Bruto (PIB) da Rússia em 7,5%. Importante ressaltar que o quarteto representa 15% dos US$ 60,7 trilhões da economia global, mas o Goldman Sachs prevê que, em 20 anos, não só os quatro países podem superar o G-7, como a China pode ter uma economia maior que a dos Estados Unidos.

O maior problema é que o grupo ainda está longe de falar uma mesma língua. Conforme analisou o jornal Financial Times o bloco representa um quarteto definido pelas diferenças , e acrescentou que se trata do primeiro grupo multilateral criado por analistas de um banco de investimento e sua equipe de marketing . Filtrada a ironia britânica, há pontos de interesse que podem e devem ser trabalhados.

Em que pesem as evidentes assimetrias (econômicas, sociais, políticas, ideológicas) e os interesses por vezes divergentes (pois disputam ferozmente mercados), a união de esforços das quatro nações pode garantir voz mais importante ao Bric conforme manifestou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em artigo publicado às vésperas da cúpula pelo jornal espanhol El País. Ninguém fala em nome dos pobres e vulneráveis se eles não se unem previamente entre si. Para falar com energia, para dialogar, mas de uma posição de firme convicção respaldada por nosso poder político , explicou o presidente, rememorando o tom do líder sindical de outrora.

O comunicado conjunto emitido ao fim do encontro manifestava que os líderes estão comprometidos em avançar na reforma das instituições financeiras internacionais para refletir as mudanças na economia mundial . Não foi mencionada uma moeda comum ou uma nova moeda neste momento. Na avaliação do chanceler Celso Amorim, há a compreensão de que essas coisas ocorrem muito gradualmente e que mudanças no sistema monetário, de maneira brusca, criariam outra crise . Em todo caso, o encontro permitiu a reafirmação do diálogo formal entre os quatro países, que voltarão a discutir, ano que vem, no Brasil.