O que se espera do comércio Brasil x China

Josefina Guedes *, Jornal do Brasil

RIO - Mais uma vez uma delegação de governo e empresários brasileiros foi à China com o objetivo de melhorar o comércio bilateral, amenizando o desequilíbrio na balança comercial Brasil x China. Apesar do crescimento significativo em termos percentuais, de 52,6% nas exportações do Brasil para a China em 2008 quando comparado com o ano de 2007, nossas exportações ainda representam somente 2,62% do total importado por aquele país.

A posição chinesa na participação do total importado pelo Brasil vem aumentando significativamente, chegando, em 2008, a 11,57% em decorrência da elevação em 58,8% em relação a 2007. Já a China representou, no mesmo período, 8,29% do total exportado pelo Brasil. Tal situação só fortalece a tese das indústrias nacionais de que a cada ano os chineses tornam-se o principal fornecedor brasileiro. Entretanto, salientamos que eles são fornecedores de produtos manufaturados, que representam 94% do total importado daquele país, bem diferente do que ocorre com as exportações brasileiras, concentradas 78% em produtos básicos.

O que podemos observar nessa balança desequilibrada é que, além do déficit comercial gigantesco entre as duas nações, teremos que fazer grandes esforços na tentativa de reverter o quadro que se delineia para o futuro muito próximo. Nossa pauta de exportação em 2008 estava concentrada 78% em produtos básicos, 6% em manufaturados e 16% em semimanufaturados. Se não formos firmes em nossos propósitos, continuaremos a ser simples exportadores de matéria-prima e importadores de produtos de valor agregado cada vez mais alto de origem chinesa.

Já faz muito tempo que a China exportava somente produtos copiados e de qualidade inferior aos de seus concorrentes. Hoje, o país concentra esforços para tornar-se exportador de produtos com elevada tecnologia, que geram maior riqueza, seja pela qualificação da mão-de-obra, seja pelo aumento do valor agregado de seus produtos.

Por seu lado, o Brasil não consegue diversificar desde 2003 suas exportações para produtos de alto valor agregado, basta observar a balança comercial entre os dois países. O Brasil tem como principais produtos de exportação para a China: sementes (soja), com 37% de participação no total exportado para a China em 2008 (8,29%); minério, com 29,8%, e gorduras, óleos e ceras animais e vegetais, com 5,3%.

Enquanto isso, a China tem como principais produtos de exportação para o Brasil: máquinas, aparelhos e materiais elétricos e suas partes, com 31,5% da participação do total importado pelo Brasil da China (11,57%); caldeiras, máquinas, aparelhos e instrumentos mecânicos e suas partes, com 18,5%; instrumentos e aparelhos de ótica, fotografia ou cinematografia, com 5,6%, veículos, automóveis, tratores e ciclos, partes e acessórios, com 2,7%, e ferro fundido, ferro e aço, com 3,2%. Tal situação tem gerado um déficit comercial com a China que tende a piorar a cada ano se nada for feito nesse sentido.

Além do problema da balança comercial, há outros dois intrinsecamente relacionados. O primeiro deles refere-se à perda de mercado doméstico pela concorrência predatória de importações de origem chinesa a preços distorcidos que afetam diretamente a indústria brasileira. A partir daí, temos a perda de empregos e a redução na arrecadação tributária interna. Se juntarmos a este quadro a perda nas nossas exportações para o mercado de nosso principal parceiro no Mercosul, a Argentina, onde empresas brasileiras são prejudicadas por medidas de controle nas importações, eliminamos anos de trabalho e investimento de empresas brasileiras no mercado internacional.

Sabemos que a China tentará mais uma vez, pela sua importância em nossa pauta de exportação de produtos básicos, ser definitivamente reconhecida como economia de mercado e, novamente, não podemos aceitar qualquer pressão sobre esta matéria. No cenário atual, conceder tal privilégio, antes que qualquer outro país o tenha feito, seria um verdadeiro desastre.

* Josefina Guedes é economista e diretora da Guedes e Pinheiro Consultoria Internacional