A Roma do Barça

Carlos Eduardo Novaes*, Jornal do Brasil

RIO - Tenho sempre a sensação de que só quem assiste futebol na TV às quatro da tarde de uma quarta-feira são aqueles jovens estudantes que deveriam estar fazendo o dever de casa, três ou quatro mulheres que não aguentam os programas femininos do horário, um monte de desempregados cansados de procurar emprego e vagabundos como eu.

Não sei o que os companheiros da transmissão vespertina acharam da vitória do Barcelona, mas para mim ela vingou a derrota da invencível Armada Espanhola para os ingleses em 1588 (fui longe demais?). A torcida do Manchester parecia antever o fiasco e desde o início manteve um silêncio de monastério. Presentes à partida no Estádio Olímpico de Roma a fina flor da cartolagem à volta do rei da Espanha, do príncipe da Inglaterra e do dono da Itália (sem a namoradinha).

A cerimônia de abertura valeu pela voz de Andréa Boccelli cantando o tema do filme O Gladiador. A coreografia das 64 dançarinas que entraram em campo não foi melhor do que o futebol do Manchester e a mulher que apareceu carregando a taça da Uefa, com aquela fantasia não seria destaque nem nas nossas escolas do terceiro grupo.

Os mais antigos diriam que o Barcelona deu um baile no adversário. O ingleses viram a cor da bola bela bola somente até os 10 minutos iniciais. Depois do gol de Eto'o, no primeiro ataque dos espanhóis, o Manchester se desmanchou em campo e nunca mais foi o mesmo até o apito final. Nem quando o técnico Alex Ferguson viu a vaca indo para a Catalunha e resolveu botar quatro atacantes em campo: alem de Ronaldo e Ronnie, Tevez no intervalo e depois Berbatov, que tem a cara do ator Andy Garcia.

Ficou provado mais uma vez que não adianta encher o time de atacantes se não há, atrás deles, um meio de campo que veja o jogo e distribua as jogadas. Foi ali, exatamente ali que o Barcelona, desfalcado de três titulares, ganhou o jogo sob a batuta de uma dupla excepcional de volantes: Xavi e Iniesta. Acho bom Dunga ir pensando em um jeito de anulá-los na Copa de 2010 na casa de apostas os favoritos para a final são Espanha e Brasil ou teremos que esperar até 2014 para levantar o caneco.

O Manchester, campeão da Copa da Inglaterra e do Campeonato Inglês, foi uma caricatura em campo. Passou o tempo todo jogando num ritmo de repartição publica parecendo satisfeito com a derrota de 1 a 0. Poucas vezes vi um time tão parecido com o atual Botafogo: uma defesa confusa, um meio de campo inexistente e um ataque inofensivo. Os ingleses não demonstraram garra nem depois que Messi com seu 1,69m fez o segundo gol, de cabeça, no meio daqueles galalaus. Lembrou-me o gol de Romário no jogo contra os vikings suecos na Copa dos Estados Unidos. A impressão que meu deu é que o Manchester entrou em campo só com a fleuma britânica.

*Escritor