O Brasil dos Brics na aliança das civilizações

Candido Mendes *, Jornal do Brasil

RIO - O Rio de Janeiro abrigará o 3º Encontro Mundial das Nações Unidas sobre a Aliança das Civilizações em junho de 2010. Esta reunião, na sequência das de Madrid e Istambul, responde à preocupação crescente de que o século 21 seja o mundo da guerra de religiões, e de um terrorismo sem volta, tão distinto de confrontações como a dos conflitos da Irlanda ou dos bascos no fim do século passado. Sobretudo, deparamos um horizonte que se liberou dos conceitos de centro e periferia diante da nova emergência dos Brics, e dos enormes países continentais, em que o caminho do Brasil se associa ao da China e da Índia, em claro destaque sobre as velhas concepções geocontinentais da América Latina.

Os próximos meses são cruciais, ao mesmo tempo, ao refletirem a aceleração histórica extraordinária do governo Obama, e da nova confiabilidade num mundo global não hegemônico. A mensagem do pluralismo político aí está, no forçamento de Israel a reconhecer um Estado palestino, e rever-se a política da Otan no Afeganistão. Reflete aí o novo governo americano, o prognóstico das esquerdas paquistanesas a dissociar inteiramente, nos ditos islamismos radicais de confrontação, a Al Qaeda, dos talibãs. O general Chrystal indica uma primeira mudança desta estratégia, a favorecer a emergência das múltiplas forças locais do Afeganistão e o entendimento do movimento pastum, apoiado pelos talibãs, como o nacionalismo tardio mas congregador do país, após a múltipla dominação nascida da Guerra Fria pela invasão soviética, e pelas retaliações do braço mais remoto da Otan, no coração asiático.

O governo Obama vence o choque da queda das torres de vez, e das frentes unitárias e monolíticas de desconfiança islâmica. Mas não há dúvida de que a previsão de Tarik Ali, e outros pensadores paquistaneses, implica outros olhos para atentar ao fenômeno talibã, fora dos estereótipos alarmistas do governo Bush.

A Conferência do Rio incorpora também esse novo dado da política externa brasileira, que é a da nossa presença no Oriente Médio, em resposta à liderança múltipla que corresponde aos países continentais emergentes e, sobretudo, à maciça presença sírio-libanesa em nosso afluxo migratório. O lance da indicação de Farouk Hosni, ministro da Cultura do Egito, para a Unesco, teve o maior impacto em toda a área, sobretudo no respeito, pelo Brasil, dos turnos de regiões, é a vez do Oriente Médio, na direção da política de educação, ciência e cultura das Nações Unidas.

O Rio abrirá o caminho, também, para a apreciação dos novos contraditórios nacionais no continente, e do que possa ser, em nome de uma autenticidade indígena pré-colonial, a reivindicação na Bolívia ou no Equador de um Estado Aimara ou Quétchua. E em que termos a pretendida revolução bolivariana, exasperada pelos mandatos continuados de Chávez, prejudica a nova abordagem múltipla do Continente com o governo Obama?

Dois mil e nove é ainda um ano de reajuste de lideranças na Alemanha e na Inglaterra, e do possível forte impacto curiosamente reverso entre a ascensão de conservadores de Londres e dos socialistas em Berlim. O universo de Obama, no Rio, para além dos ditos países periféricos, depararia o recado de Lula, como o da experiência vingada de um desenvolvimento sustentado, em que a garantia democrática é o remate decisivo da prosperidade econômica e social.

* presidente do Senior Board do Conselho Internacional de Ciências Sociais Unesco e membro da Academia Brasileira de Letras e da Comissão de Justiça e Paz