Modelo deve incampar origem do furacão

SÃO PAULO, 13 de maio de 2009 - A entrada dos governos para salvar empresas privadas na crise mundial levou à maior intervenção estatal na economia desde o fim do bloco soviético. A forma de saída do Estado dessas empresas, a gestão da 'política anticíclica' de investimentos estatais para reduzir o impacto da crise e o modelo econômico que resultará depois é que definirão se não teremos novas turbulências como esta.

Esse modelo terá de ser encampando necessariamente na origem do furacão. Tradicional defensor do laissez faire, e maior responsável pela queda em dominó da economia global, os Estados Unidos assistiram à maior intervenção do Estado na economia em sua história. A operação de socorro de empresas privadas em nome de evitar um desastre maior começou pelo sistema financeiro americano, epicentro do abalo.

Esta semana, os dez maiores bancos americanos declararam que ainda precisarão de mais 75 bilhões de dólares até o final do ano para manter sua estabilidade financeira, ainda ameaçados pela grande massa de créditos podres formada pela inadimplência de clientes que os levou à bancarrota. De acordo com o Federal Reserve Board, a maioria os bancos já têm uma saúde razoável, mas gigantes como o Citibank, o Bank of America e o Wells Fargo ainda estão na linha de alto risco.

Se os 75 bilhões de dólares não vierem do mercado, será mais uma conta a ser apresentada ao tesouro americano, cujos pacotes de salvamento se contam na casa dos trilhões de dólares. E mas ajuda só prolongará o regime de intervenção branca do governo federal na gestão dos bancos privados, virtualmente estatizados para não falir.

O mesmo ocorre em outros setores da economia. O governo americano já é dono de 50% da General Motors, onde exigiu uma série de providências, inlcuindo o fechamento de fábricas. Ajuda também a Chrysler, onde colocou não apenas dinheiro como vem procurando intermediar uma fusão salvadora com a Fiat nos Estados Unidos.

Fenômeno semelhante de salvamento ao setor privado se repete em outros países, onde o Estado assumiu a função não apenas de criar um colchão para a queda de empresas em situação falimentar, como de investir pesad para evitar o aprofundamento da recessão, num aumento outrora indesejável de participação direta na economia.

É o caso do Brasil, onde o governo se envolve nas negociações para a fusão da Sadia, virtualmente insolvente, com sua antiga concorrente, a Perdigão. Pelos termos do acordo que foi dado como próximo do final, a Perdigão ficaria com 70% do capital da nova empresa e os antigos controladores da Sadia, com 30%, de acordo com o apurado pelo repórter David Friedlander, do jornal O Estado de S. Paulo. E o BNDES faria o papel de recapitalizar a empresa resultante da fusão.

Enquanto isso acontecia, em um forum em São Paulo promovido pela revista Exame, três ganhadores do prêmio Nobel de Economia - Joseph Stiglitz, Robert Mundell e Edward Prescott - manifestavam sua preocupação de que a estatização da economia, mesmo com um papel importante no momento, poderia ter consequências danosas no futuro. É fácil para o Estado entrar como bombeiro no momento em que toda a iniciativa privada pede uma bóia de salvamento. É sabido, no entanto, que é difícil para o Estado interventor sair de posições avançadas sobre o terreno da livre iniciativa.

A onda de estatização da economia, para a trinca de Nobéis, teria consequências ruins. Uma delas é a possibilidade da permanente socialização dos prejuízos, que resultaria num aumento consolidado da carga de impostos. Se hoje os governos evitam de imediato números ainda mais assustadores de desemprego e a desagregação do sistema financeiro, podem causar uma depressão econômica duradoura, se essa conta não virar passado rapidamente.

Contribui para a preocupação a proverbial ineficiência do Estado na gestão de empresas tradicionalmente privadas e a dificuldade de se encontrar mecanismos de recompra das companhias por elas mesmas - seja pela rebilitação dos lucros a curto e médio prazo, seja pelas vias de mercado, já que o crédio é escasso e as bolsas de valores andam deprimidas.

Ninguém pode negar a vital importância da intervenção do Estado nas bases atuais, mas também é inegável que ainda não se deu o principal passo para a solução dos problemas: uma participação mais efetiva do Estado como elemento regulatório do mercado, algo que teria evitado a crise atual, e que ainda não vem sendo montado claramente para evitar que tudo volte a acontecer no futuro.

O que começa a ser discutido hoje é um novo modelo para a economia mundial no futuro - e está claro que a participação do Estado é exigida muito mais como um moderador e regulador do que como investidor, bombeiro ou participante direto de bancos e empresas privadas.

Esse modelo deve contemplar em uma reformulação do sistema financeiro internacional, com mais regulação do estado, para o que se exige uma cooperação internacional. 'A crise agora é diferente das outras nos períodos de pós-guerra, porque mostra o fracasso do nosso sistema financeiro atual', disse Joseph Stiglitz.

Enquanto se restabelece em lento processo a saúde financeira das empresas, o Estado precisa preparar sua saída do mercado e novas regras para o mercado global, que levem a evitar novas malversações de empréstimos e que estipulem um sistema mais eficaz de controle sobre banco e empresas. Está mais do que provado que não é possível permitir a ação de executivos que se aproveitam da falta de vigilância para a especulação de alto risco, como ocorreu, entre outros casos, com a Sadia no Brasil.

Se houve um ganho com a crise mundial, foi mostrar que é preciso encarar o problema de frente e começar a reformulação e uma fiscalização em escala global. Na última reunião do G-20, os chefes de Estado mostraram que há amadurecimento suficiente para isto.

País onde se tem muita experiência com crises econômicas e controle do sistema financeiro, partem do Brasil algumas das melhores sugestões para um novo modelo de desenvolvimento mundial, baseado na iniciativa privada com fiscalização pública. Na segunda-feira, dia 12, o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, sugeriu na Basileia, Suíça, sede do Banco de Compensações Internacionais, o BIS, uma nova regulação que obrigue a abertura de informações em operações de derivativos. Um colegiado de supervisores de mercado fariam um relatório global detectador de riscos, a fim de alertar o Banco Central de países ameaçados ainda em tempo de evitar maiores turbulências.

Meirelles ainda destacou as medidas que o Brasil adotou diante da crise e que vêm fazendo com que sejamos um dos países a sofrer menos com a crise e a sair primeiro do buraco: empréstimos de reservas para empresas privadas, até aqui de 23 bilhões de dólares; redução de impostos para o setor automobilístico; liberação de depósitos comulsórios para bancos pequenos e médios; injeção pelo Banco Central de 33 bilhões de dólares no mercado de derivativos, em contratos de swap.

Não por acaso, Meirelles foi aplaudido de pé ao chegar à reunião, algo significativo para o comedido colegiado de 30 banqueiros públicos que participam das reuniões do BIS - nem tanto pelas ideias, como pelos efetivos resultados que o Brasil vem obtendo.

(Análise&Opinião)