Polícia Militar, 200 anos de distância

Geraldo Tadeu Moreira Monteiro *, Jornal do Brasil

RIO - Em recente pesquisa, na qual foram entrevistados mais de mil cidadãos em todo o estado do Rio, o IBPS constatou que a Polícia Militar e a sociedade encontram-se 200 anos de distância uma da outra, tal o grau de estranhamento que existe entre elas. A mais saliente das constatações foi justamente a que trata do grau de confiança da população: apenas 34% declararam confiar na PM, contra 33% que não confiam e 32% que não confiam nem desconfiam. Comparados aos índices de outras polícias, como a americana (51%) e inglesa (54%) (Public Confidence in the Police/, Report 2008, NPIA, Inglaterra) ou mesmo mexicana (43%), esses números são muito preocupantes pela distância entre população e polícia.

Com o objetivo de testar as atitudes quanto à imagem da PM, o IBPS perguntou aos entrevistados qual seria sua primeira reação diante de hipóteses em que policiais estivessem envolvidos: blitz, enfrentamento, ou simples revista pessoal. Quase um em cada dois cidadãos (49%) declararam que sentiriam medo de passar por uma blitz; 38% teriam a mesma reação diante de uma operação da PM em ônibus e 37% sentiriam medo se a PM viesse em seu socorro durante um assalto. Quando indagados sobre as razões do medo, os entrevistados citaram como principal motivo o despreparo dos policiais , seguido da corrupção e da violência .

Na experiência direta dos entrevistados de contato com a PM, um outro dado chama a atenção: 43% já foram parados por PMs em operações policiais e avaliaram, em sua ampla maioria (51%), a abordagem dos policiais como correta ou profissional contra apenas 26% que a classificaram como rude ou desrespeitosa . Em relação às operações da PM, 28% já as testemunharam em seus locais (bairros) de moradia, percentual que se eleva a 41% dos moradores de favelas.

Quando indagados sobre as ações da PM durante essas operações, os entrevistados disseram, em grande maioria, que ela protegeu os civis (61%), combateu os bandidos com eficiência (64%) e prestou socorro aos feridos (53%). Estes dados, confrontados com os dados relativos à imagem da PM mostram claramente que a imagem é muito pior do que a realidade. Os entrevistados que tiveram contato com os policiais têm uma visão menos pejorativa da corporação do que aqueles que somente ouvem falar das mazelas.

Considerando a política de segurança em geral, 59% dos entrevistados responderam que a PM não dispõe dos meios e recursos necessários ao combate ao crime e que seu maior problema é a falta de treinamento (28%), seguido de mais equipamentos (24%) e de maior compromisso das autoridades (20%). Quase dois terços dos cidadãos (62%) avaliaram o policiamento em seus bairros como insuficiente e 48% disseram que a criminalidade, em relação aos últimos seis meses, está maior . Por outro lado, 36% acham que a ação do estado na área da segurança é, hoje, mais efetiva que há seis meses e que a presença da PM em seus bairros conseguiu, para 59%, diminuir a ocorrência de crimes. Evidencia-se a percepção por parte da população de que faltam à PM as condições mínimas para combater a criminalidade, que seu maior déficit é o despreparo dos policiais e que é só o reforço do policiamento baixará o número de ocorrências.

As conclusões da pesquisa podem ser resumidas da seguinte maneira: 1) a imagem da PM é muito pior que sua realidade. A divulgação constante pela imprensa de casos de violência e corrupção é certamente a causa maior dessa imagem negativa. 2) a PM ainda carece de gestão. Os entrevistados dizem que, a despeito de uma maior efetividade do estado, a criminalidade aumenta e que faltam meios e recursos. Em suma, com toda sua deficiência, a PM, quando corretamente gerida, produz efeitos benéficos na diminuição dos índices criminais.

Portanto, podemos afirmar que, em seu aniversário de 200 anos, a PM encontra-se diante de um grande desafio: resgatar-se como instituição eficiente (em sua gestão), eficaz (na diminuição dos índices de criminalidade) e legítima (na obtenção do respeito e da admiração dos cidadãos). Só se espera que o resgate não leve mais 200 anos.

* Presidente do Instituto Brasileiro de Pesquisa Social (IBPS)