Bem-vindos sinais de recuperação

Editorial , Jornal do Brasil

RIO - Se o período de bonança ainda está muito distante, o pior da tempestade parece já ter passado pela economia mundial. Os estragos foram visíveis e contáveis em bilhões de dólares mas tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos, cifras do mercado e estatísticas governamentais começam a revelar sinais de recuperação econômica, depois de seis meses de intensa turbulência. Analistas afirmam que há motivos bem construídos para essa melhoria do cenário.

Em termos nacionais, os estímulos fiscais concedidos pelo governo (com o lançamento de pacotes para a construção civil, veículos e linha branca de eletrodomésticos), a queda dos juros (mais acentuada e mais rápida que o esperado), além do aumento do investimento público foram importantes para repor a confiança dos agentes econômicos. É fácil perceber que, nesse momento, o ambiente econômico é bem diferente daquele registrado no primeiro bimestre.

Tanto assim que, pela segunda vez consecutiva, o mercado financeiro apostou em melhor evolução do Produto Interno Bruto neste ano, embora ainda mantenha expectativas de retração. O Boletim Focus, que reúne a opinião dos 100 principais agentes de mercado coletada pelo Banco Central, previu que o produto nacional teria um recuo de 0,30%, quando na semana anterior firmara a queda de 0,39%. Há duas semanas o mercado apostava em recuo bem maior, de 0,49%. Vale ressaltar que para 2010, o mercado mantém a expectativa de 3,5% de evolução.

A revisão do mercado financeiro sobre o PIB tem contrapartida nas expectativas mais favoráveis do setor industrial. A pesquisa Sondagem da Indústria de Transformação da Fundação Getúlio Vargas, referente a abril, mostrou que o nível de estoque da indústria brasileira já está bem próximo de sua média histórica, que é de 91,9 em 200 pontos. No mês passado, esse índice atingiu 88,4 pontos, em acentuada recuperação diante dos 78,2 pontos de janeiro. Até mesmo o indicador de Emprego Previsto inspira confiança no país: os industriais afirmam que não planejam contratar, mas também sinalizam que não há mais intenção de demitir.

As notícias oriundas da maior potência mundial são igualmente auspiciosas. Índices que monitoram de forma mais atualizada o comportamento da economia americana, divulgados neste início de mês, sinalizam uma tendência de recuperação apesar da significativa retração do PIB no primeiro trimestre, de 6,1% frente ao quarto trimestre de 2008. Os índices de confiança do consumidor mostraram reação em abril, e chegaram próximos ao patamar anterior à quebra do banco de investimento Lehman Brothers tida como o marco zero da crise. O índice avançou para 65,1, ante 57,3 em março. O consumo pessoal também cresceu além do esperado, com expansão de 2,2% no trimestre.

Embora analistas sejam hesitantes em usar o termo retomada da economia americana, o que se percebe, de fato, é que a fase mais aguda da crise já se foi. O momento que se apresenta é de reorganização da economia e de preparação para novos desafios. Se é verdade que o Brasil não passou incólume à crise, também é certo que tem potencial para recuperar-se dos prejuízos e manter-se como ator relevante entre as potências emergentes.