Deus é brasileiro

Jorge Darze *, Jornal do Brasil

RIO - O importante artigo traduzido pela Agência Adital "México: epidemia de lucro", da uruguaia radicada no México Sílvia Ribeiro, pesquisadora do grupo ETC, rede mundial de pesquisa sobre novas tecnologias nas sociedades, revela a face obscura e perversa das epidemias que estão afetando o mundo, em especial, a suína. O trabalho aborda a perigosa repercussão dos métodos empregados pelas empresas multinacionais instaladas no México para a criação de aves e suínos. Suas instalações incluem o confinamento dos animais, criando um ambiente perfeito para a recombinação de vírus de distintas cepas. Vale destacar, que na cidade sede dessas empresas, Perote, uma virulenta epidemia de doenças respiratórias atingiu 60% da população e aqueles que ousaram denunciar sofreram repressão das autoridades. O fato é que há uma pandemia em curso, o que fez, inclusive, com que a Organização Mundial de Saúde (OMS) já pense em elevar a sua classificação do grau 5 para o 6, último da escala, demonstrando a preocupação do órgão com o que está acontecendo e com o que ainda poderá acontecer.

O mundo globalizado, a instantaneidade das informações e a rapidez com que as pessoas circulam entre os países, são fatores que contribuem para a propagação de doenças, hoje, principalmente a gripe suína. Embora ainda estejamos na dependência das pesquisas em curso para saber qual a origem e o grau de letalidade do vírus H1N1 nos humanos, está patente a sua gravidade e as possíveis complicações decorrentes. Os casos suspeitos no Brasil estão sendo monitorados em vários estados e alguns, felizmente, já foram descartados, mas as nossas autoridades não contestam a possibilidade da epidemia chegar ao país.

Nós, médicos, temos a preocupação redobrada, pois o Rio de Janeiro permanece sob a vigência de um decreto presidencial de 2005 que reconhece a calamidade na saúde pública. O nosso sistema de saúde está gravemente enfermo, acometido de uma doença reconhecida que se expressa através da omissão e negligência do poder público. A falência da rede básica, com hospitais públicos degradados, superlotados, desabastecidos e carentes de médicos nas mais diversas especialidades, configura um verdadeiro pandemônio, e a nossa população é a principal vítima.

Não podemos esquecer as duas últimas epidemias de dengue, quando a mortalidade, em cada uma, foi superior a 100 casos. Sabemos que esse número poderia ter sido bastante reduzido.

Diante da gripe suína e de uma provável epidemia, a nossa população volta a se preocupar com a falta de capacidade de atendimento do sistema. Ao mesmo tempo em que nos preocupamos, à espera de um milagre, nos confortamos com a certeza de que Deus é brasileiro.

* Jorge Darze é presidente do Sindicato dos Médicos-RJ