O bolinho de sopa

Paulo Pizão*, Jornal do Brasil

RIO - Há muito venho me incomodando, como cidadão, com os temas que são tratados em boa parte dos meios de comunicação, em especial, na televisão, tendo como único intuito fixar a atenção do leitor, ouvinte ou telespectador, visando à obtenção de atrativos níveis de audiência e preferência, que lhes permitam captar propaganda e publicidade. Não se importam com a qualidade ou a consequência na formação de opinião, difusão de hábitos ou quebra de padrões morais ou sociais. A tônica é a cópia e a banalidade, o objetivo é fazer o consumidor ficar ligado na emissora.

Um exemplo gritante desse comportamento é a TV Globo, minha referência ao longo dos anos como canal de abertura da tela de minha televisão que, de alguns tempos para cá, transformou-se em uma máquina de atingir índices de audiência a qualquer preço, usando até em sua propaganda institucional frases dúbias como Globo repórter 100% campeão de audiência, confundindo o percentual de audiência com o fato de ser há muito tempo o programa líder no horário.

O tio de uma amiga tio Dilermano, apelidado de Já Morreu dizia para a irmã Adalgiza, muito econômica, que da comida de um dia inventava pratos para mais outros dois, quase sempre terminando em sopa, que um dia ela ia acabar fazendo bolinho de sopa . É, pois, assim que estou vendo a TV Globo!

Acompanhem comigo. Uma starlet selecionada é levada para o Big Brother Brasil, submetendo-se a um rigoroso script de dramas programados, sedução, barracos e escândalos. A esses ingredientes são adicionadas cenas de comovente apoio da família e dos amigos, criando-se um quadro de exaltação e carinho público. Ganhe ou perca essa pessoa, que já foi pregada no gosto de parte da opinião pública, vira artista, apresentadora ou integrante de algum programa da emissora. Em seguida aparece no Vídeo show com as gravações de suas aparições ou vida particular. O próximo passo é participar daquelas gincanas das tardes, onde as coisas mais tolas são apresentadas como instrumentos de definição de vitórias pessoais, estimulando conceitos falsos de capacidade intelectual. Para que essa figura se fixe ainda mais no gosto da opinião pública (coitadinha da opinião pública) é levada ao Faustão, que sempre indica quem vai ao programa como o melhor do Brasil , o maior da TV etc. Como se não bastasse, essa mesma personagem é apresentada com todas as homenagens de grande estrela no programa do Serginho Grossman! Sem contar que, daqui a alguns meses, veremos a estrela ou astro em um repeteco denominado Vale a pena ver de novo. Isso tudo regado a aparições no RJ TV ou no Fantástico.

Um absurdo! Horas e horas dedicadas pelas pessoas, quase compulsoriamente, a um único personagem apresentado sobre diversas formas ao público, que é atraído pelo hábito e por climas criados, tudo pela audiência fácil.

Como diria o tio Dilermando, o Já Morreu, desse jeito a TV Gobo vai acabar fazendo bolinho de sopa !

*Ambientalista e empresário