O novo compromisso americano para o século 21

James L. Jones *, Jornal do Brasil

WASHINGTON - Há 100 dias, os Estados Unidos comemoraram a posse do nosso 44º presidente. Muitas pessoas no mundo todo uniram-se a nós para comemorar essa ocasião histórica para o povo americano e para todos que acreditam e têm esperança na possibilidade de esperança em um futuro melhor para si e para seus filhos.

A emoção e o otimismo que nós americanos sentimos em 20 de janeiro só cresceu desde então, mesmo em face da grave crise econômica global, de notícias de um vírus de gripe e dos imensos desafios do século 21, como terrorismo e proliferação de armas nucleares; mudanças climáticas e pobreza; conflitos sem fim e doenças perigosas.

Esses desafios não foram causados por uma única nação, nem podem ser resolvidos por uma única nação. Em seu segundo dia no cargo, o presidente Obama disse: Pelo bem da nossa segurança nacional e das aspirações comuns dos povos do mundo todo, uma nova era de liderança dos EUA no mundo deve começar agora.

Durante os primeiros 100 dias de seu governo, o presidente Obama já mostrou ao mundo como será o novo compromisso americano. Primeiro, ele e seu governo se comprometeram com uma política externa que garanta a segurança do povo americano e de seus amigos e aliados. Engajamento global fundamentado em interesses e respeito mútuos é o ponto de partida de nossa política externa. E, embora haja circunstâncias em que essa abordagem possa vir a não ser bem-sucedida, os EUA estarão, em primeiro lugar, prontos a ouvir e a dialogar com possíveis adversários para promover os interesses nacionais e da comunidade global que dependem da liderança dos Estados Unidos em questões de segurança. Nos casos em que o uso mais patente da força seja inevitável, nenhum adversário deve ter ilusões sobre as consequências. É por isso que continuaremos a manter nossas Forças Armadas como as melhores do mundo, bem como as mais admiradas e respeitadas.

Para concretizar nossas estratégias de engajamento, e logo após assumir a Presidência, o presidente nomeou alguns dos mais talentosos diplomatas dos EUA para servir como enviados especiais e representantes para a paz no Oriente Médio, o Sudoeste da Ásia, o Sudão, o Afeganistão e o Paquistão e para Mudanças Climáticas. Esse simples fato já demonstra que no século 21 nosso foco e energia priorizarão estratégias regionais em assuntos relativos à segurança nacional e internacional. Isso representa o reconhecimento claro de que devemos lidar com o mundo como ele é atualmente e não como era no século 20. Durante os últimos três meses, a comunidade de segurança nacional, incluindo nossos diplomatas no exterior, engajou-se em diplomacia ativa e efetiva para vencer os diversos desafios que enfrentamos. Até aqui, os resultados foram animadores, mas resta muito a ser feito.

O presidente Obama também deixou claro seu compromisso de buscar um diálogo sério e positivo com as comunidades muçulmanas em todo o mundo. Foi por este motivo que sua primeira entrevista para uma TV como presidente foi para a emissora Al-Arabiya. Foi também por isso que falou ao povo do Irã e a seus líderes que busca um novo diálogo sobre a ampla gama de questões que enfrentamos, e por essa razão falou de novas parceiras em benefício da educação, saúde e oportunidades em seu discurso perante o parlamento turco. E, finalmente, é por essa razão que esclareceu que os EUA não estão e jamais estarão em guerra contra o islã.

Em segundo lugar, deixamos claro que é nossa intenção desorganizar, desmantelar e derrotar a Al Qaeda. Em março, o presidente divulgou os resultados de uma revisão abrangente da estratégia para o Paquistão e o Afeganistão, que finalmente proporcionará os recursos que necessitamos para atingir nossos objetivos, ao mesmo tempo em que ajudamos os povos do Afeganistão e do Paquistão na busca por mais oportunidades. Em Estrasburgo, no 60º aniversário da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), o presidente recebeu amplo apoio internacional para sua estratégia e obteve o compromisso dos aliados da Otan de criar um novo conceito estratégico para que a aliança se torne mais preparada para enfrentar os desafios do século 21. E em Bagdá, o presidente reiterou seu compromisso de redução responsável de nossas tropas, seguindo o Status of Forces Agreement (Sofa) negociado com o governo do Iraque, enquanto ajuda os iraquianos a assumir a responsabilidade pelo seu futuro soberano.

Em terceiro lugar, Obama tem trabalhado para promover estratégias comuns para lidar com uma ampla gama de desafios globais. Em Londres, ajudou a construir importante consenso sobre medidas concretas para tratar da crise financeira global, incluindo um novo marco regulatório; maior assistência aos países em desenvolvimento e reafirmação do compromisso com um comércio livre e justo. Em Praga, lançou uma agenda ambiciosa para proteger todos os materiais nucleares perdidos em todo o mundo em quatro anos, visando reverter a onda de proliferação nuclear e lutar por um mundo livre de armas nucleares.

No âmbito interno, o presidente Obama reconheceu nossa responsabilidade compartilhada de tratar de forma eficaz a demanda por drogas e o tráfico ilegal de armas, e também lançou um novo plano de combate à violência relacionada a drogas na fronteira dos EUA com o México. O presidente anunciou ainda o fim das restrições sobre remessas de dinheiro e viagens à Cuba para os cubano-americanos e indicou um novo começo com nossos vizinhos do continente, oferecendo cooperação em uma série de questões na Cúpula das Américas.

O presidente também trabalhou de maneira eficiente com organizações multilaterais. Nas últimas semanas, os Estados Unidos reuniram nossos aliados e a comunidade mundial em resposta ao lançamento do míssil pela Coreia do Norte, e estão aumentando os esforços internacionais para combater a pirataria na costa da Somália. Por último, os Estados Unidos sinalizaram sua intenção de liderar ainda outras iniciativas significativas, de grande importância para o nosso planeta, no avanço de parcerias sobre energia limpa e mudanças climáticas, a começar com a primeira sessão preparatória do Fórum das Grandes Economias sobre Energia e Clima.

Finalmente, o presidente Obama rejeitou como falsa qualquer escolha entre a segurança dos Estados Unidos e seus ideais. Em seu primeiro dia de trabalho, ordenou o fechamento do Centro de Detenção da Baía de Guantánamo dentro de um ano, aboliu as técnicas intensificadas de detenção e deixou claro, sem exceção ou equívoco, que os EUA apóiam inteiramente a Convenção de Genebra e não praticam nem aceitam a tortura. Nesta questão também espera-se que lideremos pelo poder do nosso exemplo.

Embora muito tenha sido dito e feito nos últimos 100 dias, aqueles de nós que temos o privilégio de servir a nossa nação neste extraordinário e complexo período de desafio, reconhecemos plenamente que estamos apenas no início da jornada. Acreditamos que estamos avançando no enfrentamento de grandes desafios, em primeiro lugar na restauração da posição dos EUA como amigos e parceiros de todos aqueles que buscam um futuro de paz, prosperidade e dignidade para seus cidadãos.

* James L. Jones é assessor de Segurança Nacional dos EUA