Favelas crescem sem contenção

Editorial , Jornal do Brasil

RIO - Além da violência e do poderio bélico embutidos nas ações do tráfico de drogas que saltam aos olhos do cidadão em meio à mais recente guerra pelo controle da favela Tabajaras, em Copacabana outro tema inerente à questão merece atenção urgente das autoridades: a favelização crescente da cidade do Rio de Janeiro. Cálculos recentes da prefeitura mostram que mais de 600 favelas estão instaladas no município, abrigando quase um terço da população carioca. Uma quantidade absurda de pessoas que vivem em condições precárias de saneamento, segurança, lazer e qualidade de vida, e que precisam ser resgatadas, de fato, à plena cidadania.

Décadas de administrações permissivas (ou mesmo assistencialistas) consolidaram no Rio a ideia de que qualquer sem-teto poderia morar debaixo do viaduto ou invadir terrenos, na margem dos rios, do mar e nos morros. Desde então, a ampliação generalizada das favelas causou perturbação urbana incalculável. Não bastasse a natureza constantemente violentada (com desmatamento desenfreado e desvio de córregos para a construção de barracos, despejo de lixo em áreas impróprias) os traficantes, com suas guerras internas (como a que ora se vê na Tabajaras), contribuíram para a exacerbação dos riscos, transformando em incomodados os outros cidadãos, acossados pela violência e a aparente indiferença das autoridades.

No Rio, o crescimento desvairado dos bolsões de pobreza configura-se de uma forma tal que toda a urbe começa a fundir-se numa imensa comunidade. Em termos de segurança pública, quanto maior a área favelizada, mais difícil o trabalho da polícia. Portanto, conter a expansão das favelas é uma tarefa sobre a qual o governo estadual e a prefeitura precisam debruçar-se com empenho e urgência.

Infelizmente, as discussões teóricas e os delírios políticos tendem a desvincular insegurança e expansão das favelas, embora uma questão esteja relacionada à outra como cordão umbilical difícil de cortar. A crescente violência urbana demonstra que o tráfico de drogas ganha terreno, nos morros e áreas circunvizinhas. Cada vez com mais frequência os traficantes abrigados nos morros tomam conta das ruas, determinam abusivamente quem pode transitar por elas, não raro forçando o comércio de determinados bairros a fechar as portas quando um de seus dirigentes é abatido.

Nos mais recentes projetos do poder público (nas esferas estadual e municipal, com algum aporte de capital da União), obteve-se relativo sucesso na reurbanização parcial de comunidades bastante específicas como no Morro Santa Marta, em Botafogo. Conforme já ressaltado neste espaço, após a ocupação policial do ano passado, que expulsou dali os traficantes de drogas, a ocupação social chegou com toda força, potencializada pelo programa de inclusão digital que cobriu o morro com internet banda larga sem fio. O projeto começa a colher frutos e deverá ser implantado aos poucos em outras comunidades, conforme haja efetivo treinado para tanto. Contudo, enquanto persistir o problema nas outras centenas de áreas conflagradas, só um bem planejado programa habitacional, somado a um verdadeiro choque de ordem, poderá conter a expansão das favelas.