Os insidiosos inimigos do verde

Editorial, Jornal do Brasil

RIO - Metade das 20 mil árvores plantadas ou replantadas anualmente na cidade não chega à fase adulta. De acordo com levantamento da Fundação Parques e Jardins, cerca de 10 mil mudas são depredadas ou simplesmente morrem por falta de cuidados. A estatística alarmante por si só torna-se ainda mais chocante quando se percebe que o vandalismo é um dos principais fatores que contribuem para a morte das plantas, conforme publicado ontem em reportagem do Jornal do Brasil.

Não bastassem as condições adversas oferecidas pela própria urbe para o crescimento das árvores (excesso de poluição, pouco espaço para o enraizamento, baixa luminosidade diante da sombra dos edifícios), a estupidez do ser humano se soma à complicada equação, para agredir ainda mais o verde em seu nascedouro. A erradicação do vandalismo não diz respeito apenas aos governos, mas a toda a sociedade. Passa não só pela educação mas, sobretudo, pela conscientização ambiental.

Especialistas informam que a formação da copa que faz sombra, enfeita o espaço público e atrai a fauna (passarinhos) leva de cinco a sete anos, dependendo da espécie. É justamente nesse período que as mudas ficam vulneráveis a ataques com água fervente e creolina, além de urina de cachorro e de pessoas, conforme constatou a Fundação em diversos bairros. A fim de diminuir a depredação, há dois anos o órgão da prefeitura mudou o padrão das mudas atualmente maiores e mais resistentes, com cerca de 2,5 metros de altura e três centímetros de diâmetro. Também estendeu para um ano o período de manutenção depois do plantio. A boa notícia é que já foi detectada a diminuição dos casos de vandalismo, mas o estudo mais detalhado só sai este ano.

A falta de consciência de grande parte da população por vezes torna a relação entre as árvores e a cidadania bastante conflituosa com clara desvantagem para o verde. São frequentes as reclamações quanto a danos no calçamento provocados por raízes ou incompatibilidades surgidas entre galhos e redes de transmissão. O resultado da contenda, em verdade, é prejudicial para ambas as partes: podas danosas e retiradas desnecessárias acabam por interromper o círculo virtuoso proporcionado pela árvore urbana. É comprovada a melhoria da qualidade do ar, a redução do nível de ruídos e a amenização da temperatura (com queda de até 4 graus) junto aos bairros mais arborizados.

À parte o prejuízo ambiental (incalculável), há ainda perdas materiais quando da destruição das plantas em desenvolvimento. Cada muda custa cerca de R$ 80, fora os gastos com técnicos, transporte de material e abertura de canteiros. Um motivo a mais para a vigilância do cidadão-contribuinte carioca que preza o dinheiro público. Atenção redobrada também devem ter governo e sociedade para verificarem o cumprimento da Lei Municipal 613, de 1984 (que obriga as construtoras a plantarem uma árvore por 150 metros de área construída, como medida compensatória por tirarem a vegetação da cidade).

Afinal, uma das capitais mais arborizadas do planeta, o Rio de Janeiro tem por obrigação zelar por este patrimônio. E incutir nas futuras gerações o respeito ao meio ambiente.