Vitória da esquerda em El Salvador

Emir Sader*, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - No momento da posse de Fernando Lugo como presidente do Paraguai, em agosto de 2008, a revista The Economist afirmou que, com a crise, aquele era o último presidente de esquerda a ser eleito. Com a chegada da crise, os temas centrais passariam a ser favoráveis à direita ajuste fiscal e violência.

No domingo, a Frente Farabundo Marti conseguiu, depois de quatro tentativas, eleger presidente de El Salvador, o jornalista ex-correspondente da CNN naquele país Mauricio Funes, derrotando o partido de governo por 20 anos, Arena. A chave dessa vitória esteve na atitude da FMLN de não lançar um candidato de suas fileiras, mas procurar um nome independente, que não participou da luta em 70 e 80.

O que pode representar para El Salvador, para a América Central e para o conjunto da região, essa vitória? A América Central, por sua localização geográfica e fragilidade econômica, foi sempre considerada zona privilegiada de influência americana, de forma direta ou por meio das relações do México. O retorno de Daniel Ortega à Presidência da Nicarágua, o ingresso de Honduras à Alca e a eleição de um presidente da FMLN em El Salvador, começam a mudar a configuração.

El Salvador havia tido historicamente o empresariado mais dinâmico da região. A vitória sandinista na Nicarágua e a crise econômica que afetou a região a partir dos anos 80 fortaleceram movimentos guerrilheiros, que se uniram e desataram um processo insurrecional que conflagrou o país por duas décadas.

O fim da URSS e o advento do mundo unipolar sob hegemonia americana levou ao que guerrilhas em El Salvador e na Guatemala definissem como fim da luta armada e início de processos de negociação de paz que levaram a FMLN a se constituir como partido político.

Para enfrentar a crise, governos da Arena promoveram a dolarização do país da forma que ocorre no Equador e com efeitos similares: elevação dos preços, desemprego e exílio. Da mesma maneira que equatorianos rapidamente se constituíram na maior colônia na Espanha, El Salvador viu quase um quarto da sua população ir para os EUA.

A crise, desmentindo The Economist, favoreceu a vitória de Funes, apesar da feroz campanha do governo contra sua candidatura, incluindo a ameaça de que desdolarizaria a economia e impediria o envio de dólares de salvadorenhos nos EUA. Funes se comprometeu em não tomar essa medida, evidenciou que sua referência externa é Lula e não Hugo Chavez, e fez apelo ao empresariado para somar forças.

A direita chegou a propagar que haveriam voos fretados a baixo preço nos EUA para que 40 mil salvadorenhos retornassem para votar, porém na mesa em que deveriam votar só compareceram 20 votantes. Fraudes denunciadas não foram suficientes para impedir a vitória.

El Salvador passa a viver uma situação de teste para os acordos de paz, que previam a possibilidade de alternância no governo, que duas décadas depois se realiza. O governo de Funes tem a responsabilidade de mostrar que a capacidade demonstrada em governos de São Salvador pela FMLN cargo que perdeu em janeiro, depois de quatro mandatos preparou o partido para exercer o governo a nível nacional.

*Sociólogo