Milk e as muitas vozes da igualdade

Denise Motta Dau * , Jornal do Brasil

RIO - Meu nome é Milk e quero recrutá-los para a luta pela igualdade . Com essa frase, que virou sua marca registrada, Harvey Milk iniciava suas falas, ou melhor, seus gritos por meio de um megafone vermelho nos atos políticos.

Baseado em roteiro que reflete a história real de Harvey Milk, ativista dos direitos gays nos anos 70 e primeiro homossexual a ser eleito para um cargo público na Califórnia, o diretor de cinema Gus Van Sant fez o belo filme Milk a voz da igualdade, protagonizado pelo ator Sean Penn.

E por que na semana em que se comemora o Dia Internacional da Mulher data que nos faz lembrar mulheres brilhantes e lutadoras decidi falar da igualdade entre os sexos citando a trajetória política de um homem? Porque Milk defendeu um princípio fundamental do cotidiano das pessoas, seja mulher ou homem, que lutam por uma sociedade justa, pelo direito de ser diferente no vestir, no falar, no amar, no pensar, no gênero, na aparência e no que mais lhe convier, sem que tudo isso seja utilizado disfarçadamente como indicativo de incompetência profissional ou fragilidade pessoal.

O perverso caminho da discriminação irradia formas de violência tão doloridas quanto uma covarde pancada. A exclusão no momento da contratação para um emprego, ou a escolha de quem vai ser demitido(a) por sexo, orientação sexual, idade, raça, origem deixa marcas profundas, não só no indivíduo, mas em toda sociedade. Basta olharmos para a realidade do mundo do trabalho, onde as mulheres têm muito o que dizer, muito a gritar.

O enfrentamento com mobilização, políticas públicas e leis contra a discriminação diz respeito a todos nós, pois tal qual a erva daninha, a discriminação é uma praga que se não combatida na raiz, facilmente se amplia. Hoje poderei ser a discriminada. Amanhã, poderá ser qualquer um.

É bem interessante ainda observar o entrelaçamento dos movimentos durante o filme. O sindicato dos caminhoneiros transportadores, por exemplo, não conseguia fechar a negociação com os empregadores de uma determinada marca de cerveja; então, o movimento gay, em solidariedade, decidiu boicotar o consumo desta cerveja nos bares de São Francisco, causando grande prejuízo. E por conta da pressão unificada é que o sindicato conseguiu fechar um bom acordo coletivo com a empresa.

O filme aborda delicadamente o tênue limite entre a paixão e a saturação que assombra as relações amorosas homo ou heterossexuais. Quem é militante sabe muito bem disso. Em uma cena hilária, o namorado de Milk, saturado da militância política (dele próprio) e do parceiro, logo após a companheirada deixar a casa deles depois de uma exaustiva reunião, diz: Se você der uma palavra que seja sobre política, eu juro que furo seus olhos com esse garfo! . Milk responde assustado: Não, eu só ia dizer que o jantar está ótimo! .

Vale destacar que, quando Milk candidata-se pela terceira vez a supervisor distrital em eleição realizada por meio de votação direta pela população regional ele faz a feliz opção de trazer uma mulher (Ana) para a coordenação de sua campanha. No início a equipe torce o nariz, mas rapidamente integra-se a ela. Ana é mulher que garante amplo apoio para a candidatura de Milk em setores nunca antes cogitados. Além disso, a campanha incita a aprovação de uma lei visando a proteger os homossexuais da discriminação no emprego, sem descuidar de temas como proteção aos idosos, segurança e limpeza das ruas. Fruto disso, Milk é eleito. É nesse sentido que a CUT retoma, com muito vigor, em aliança com os movimentos sociais, a Campanha Cidadania: igualdade de oportunidades, na vida, no trabalho e no movimento sindical.

Nós, mulheres e homens do novo milênio, buscamos ir além. Temas como casamento gay, igualdade salarial, ampliação da licença maternidade (e paternidade), descriminalização do aborto, prevenção e punição à violência contra a mulher, quotas raciais e políticas de gênero com igualdade nos espaços públicos são temas vivos da nossa ação.

* secretária nacional de Organização da CUT e mestre em saúde coletiva pelo Instituto de Saúde de São Paulo