Única ferreira da Cidade do Samba é admirada por colegas

Portal Terra

RIO - Elaine Panema, 34 anos, é do tipo de pessoa que gosta de conversar. Se você fizer uma pergunta para ela, dificilmente a resposta durará apenas alguns segundos. O porte forte esconde uma voz feminina delicada e uma história de vida difícil como a de muitos brasileiros pobres. Moradora de São Gonçalo, na região metropolitana do Rio de Janeiro, cria com a ajuda da mãe o filho Emerson, 9 anos. Nesta época do ano trabalha até 12 horas por dia, de segunda a sábado. Ela é admirada pelos colegas por ser a única ferreira da Cidade do Samba, o complexo de barracões das maiores escolas de samba cariocas.

Filha de um estivador e de uma empregada doméstica, ela quase não vê o filho durante os dias úteis. Chega em casa por volta da meia-noite, horário em que Emerson já está dormindo. Essa ex-telefonista, também já fez expediente como recepcionista de clínica veterinária e empregada doméstica. E foi nesta última profissão que passou por uma decepção que mudaria o seu destino. O fato ocorreu em setembro de 2007, véspera do feriado da Páscoa judaica, data comemorada pelos antigos patrões com um farto jantar preparado por ela.

- Durante um telefonema com a filha, minha ex-patroa falou que a funcionária da amiga dela era esperta porque estava aprendendo informática. Olhei para a mesa cheia de comida e pensei: a boba aqui sou eu. Não davam valor para o meu trabalho. Três meses depois estava na rua, procurando um novo emprego - relembra Elaine.

Decidiu fazer um curso de solda em Niterói, cidade vizinha a São Gonçalo, cerca de 5 km distante do bairro onde mora. Durante os três meses de aula, sem dinheiro, já que estava desempregada, fazia o trajeto de bicicleta, diariamente.

- Tenho muitos amigos soldadores. Paguei o curso na área e fiquei sem nenhum dinheiro além da verba das despesas de casa. Ia para o curso de bicicleta para economizar as passagens de ônibus - conta.

Depois de formada, recebeu muitas respostas negativas na procura de emprego como soldadora. Até que um amigo, chefe do trabalho de ferragem em duas escolas de samba, a ajudou.

- No início foi difícil, pois não tinha experiência. Até encontrar um amigo, o Jorginho Ferreiro, que me deu uma oportunidade justamente no barracão de uma escola de samba, a Portela, no ano passado. Aqui no Império Serrano estou trabalhando há mais de três meses. Sem ele, tudo teria ficado ainda mais complicado - agradece.

Neste momento apareceu mais uma barreira: o preconceito masculino. A área de ferragem nos barracões das escolas de samba é um ambiente de trabalho dominado pelos homens. A chegada de uma integrante do "sexo frágil" criou algumas situações constrangedoras para Elaine.

- Além de ser um trabalho muito cansativo, existe discriminação dos colegas homens. Cheguei a pensar em desistir da profissão, pois ouvi muitas piadinhas. Eles não gostam de ter mulher competindo diretamente no mercado de trabalho. Mas sempre vou à luta. Quando falam que eu não sou capaz, eu provo que posso ser muito útil. Consegui vencer essa barreira, mostrando que sou igual a eles. A única diferença é que quando termina o trabalho, eu tomo banho, coloco o meu vestidinho, sandália alta, maquiagem, perfume - disse.

O fato de ser uma das poucas mulheres que trabalha no barracão também já gerou algumas cantadas por parte dos mais atirados. - Às vezes acontece. Mas sempre saio pela tangente - desconversa.

Com a bagagem de dois carnavais, Elaine conta que aprendeu alguns truques para realizar o serviço da melhor forma possível, evitando quebras das alegorias em plena Sapucaí.

- As peças precisam estar bem alinhadas. É importante soldar bem os ferros para não acontecer problema de quebra do carro na Sapucaí. Tem que ter a manha. E isso eu aprendi no carnaval - afirmou.

Como todo carnaval tem seu fim na Quarta-feira de Cinzas, o emprego no barracão do Império também vai se aproximando do final. Será que ela vai voltar para as cozinhas das casas de família?

- Penso em fazer mais um curso. Desta vez na área de solda de estaleiro, pois é mais fácil de conseguir colocação no mercado de trabalho - disse.

Cozinha mesmo, só a da casa dela, onde gosta de preparar pratos marroquinos e quitutes árabes. Nos finais de semana, além de dar atenção ao namorado, conversa com o filho.

- Quando conheci o meu namorado, eu já trabalha como ferreira. Ele diz que entende a minha profissão - afirmou.

Passado os momentos difíceis da adaptação, Elaine diz que se sente à vontade no ofício. Conquistou a confiança e o carinho dos imperianos.

- A 'família Império Serrano' tem um calor humano incrível. Me sinto em casa. Fiz amigos, conquistei o respeito. Não só das pessoas aqui do barracão, como dos torcedores que vêm de Madureira, onde fica a quadra, para me conhecer - vibra.

No dia do desfile, a adrenalina sobe e a sensação de dever cumprido se unem à paixão pela festa. Nem durante a passagem da escola pelo sambódromo Elaine terá folga.

- Fico na concentração, depois desfilo com a escola e na dispersão volto a trabalhar. A emoção é imensa, pois você vê o trabalho que ajudou a fazer. O coração cresce quando piso na Sapucaí. Dá pra curtir o Carnaval assim mesmo. É um olho no padre e outro na missa - afirmou.

Perguntada sobre qual escola tem lugar cativo no seu coração, a simpática ferreira conta que o Império conseguiu lhe conquistar.

- Já gostava de Carnaval antes de trabalhar no meio. Agora mais ainda. Carnaval lá fora é uma coisa, aqui dentro é outra, pois somos todos artistas. Não tem celebridade que brilhe mais do que a gente. Nós é que estamos por trás daquela festa toda. Minha escola do coração hoje é o Império. Dou o meu suor e sangue por ela. A escola tem sido uma mãe - garantiu.

Após o final do papo, Elaine voltou para o batente. Ela terá muito trabalho até o dia do desfile.