Oscar Niemeyer acha que Sapucaí 'deveria ser usada para protestos'

Vágner Fernandes, Jornal do Brasil

RIO - Aos 101 anos, o arquiteto e idealizador do Sambódromo, Oscar Niemeyer, ainda mantém o vigor de sua juventude político-intelectual e manda recado às escolas de samba do Rio, sugerindo que deveriam usar o espaço para protestar.

Até hoje, as pessoas crêem que o monumento da Apoteose é um referência às curvas femininas, particularmente ao traseiro da mulher. Isso tem fundamento?

Nenhum. O monumento é algo simples, um traço apenas. Não tenho de sexual nele. Outro dia me perguntaram se era a letra "M" estilizada. Nada disso. Mas, claro, mulher, meu amigo, é fundamental.

O senhor não acha que o Sambódromo perdeu um pouco de suas características originais, ou seja, ser, em primeiro lugar, um local extremamente popular?

Considero que continua sendo. Se formos falar dos altos preços dos ingressos que são cobrados, aí sim creio que precisa ser reavaliada a estrutura da festa do ponto de vista organizacional. A estrutura está lá, talvez precisem aproveitar melhor determinados espaços. O Museu do Carnaval, por exemplo, praticamente não existe. Não entendo por que não levaram a sério algo tão importante para a preservação de nossa memória cultural.

Há um momento específico dos desfiles da Sapucaí que marcou o senhor?

Eu fui ao Sambódromo apenas uma vez. Não me interessei em ir novamente. Mas a imagem que me marcou no Carnaval não vem da Sapucaí e sim de um desfile de Minas Gerais que assisti pela TV. Era uma escola ou um bloco, não me lembro bem, que usava a sua passagem pela avenida para protestar. Acho que as escolas de samba do Rio deveriam usar este espaço para propor mais reflexões por meio de ações desta natureza. O Sambódromo é extraordinário para se colocar a boca no mundo.