Niemeyer: 'O prédio da Brahma deve ser implodido'

Vágner Fernandes, Jornal do Brasil

RIO - Para o Sambódromo ficar melhor, o prédio da Brahma deveria ser implodido , defende o arquiteto e idealizador da Passarela do Samba, Oscar Niemeyer, 25 anos depois da construção de uma das mais polêmicas obras do Rio de Janeiro. Executado pelo então governador Leonel Brizola a pedido do antropólogo e então secretário extraordinário de Ciência e Cultura do estado, Darcy Ribeiro, o projeto custou aos cofres públicos US$ 17 milhões. Durante a obra, um operário morreu, o pedreiro Pedro Paulo Nascimento, que caiu do alto de uma das arquibancadas em processo de finalização.

Da sua concepção até a inauguração, o Sambódromo, ou Passarela do Samba, sempre esteve no centro de árduas e polêmicas discussões. No entanto, como Niemeyer enfatiza, até hoje não há na história da engenharia mundial uma obra de tamanha dimensão realizada em período tão curto: 140 dias.

Foi um benefício enorme para a cidade. O espaço é bem aproveitado. No entanto, se o espetáculo não é mais tão popular assim pelo alto preço dos ingressos, é uma outra história que deve ser discutida. Mas a obra é espetacular e simples: 10 blocos de cimento com um asfalto no meio resume o arquiteto.

Há 25 anos, o governador Leonel Brizola decidiu atender ao pedido de grupos de sambistas para a construção de arquibancadas permanentes para os desfiles das escolas de samba. A ideia era manter no Centro da cidade um local definitivo para a exibição das agremiações. Removidas da Praça Onze para a Avenida Rio Branco e depois da Presidente Vargas para a Rua Marquês de Sapucaí, elas temiam a transferência da festa para o Autódromo de Jacarepaguá, o Maracanã ou até mesmo o Riocentro, o que desfiguraria a característica original dos desfiles.

A proposta era como erguer um Maracanã em quatro meses. Brizola seguiu em frente em 2 de março de 1984 inaugurou a passarela que poria fim ao monta-desmonta das obsoletas arquibancadas com estruturas de ferro, cujas empresas consumiam, anualmente, grandes fortunas dos cofres públicos argumento que, diga-se de passagem, foi muito bem explorado nos discursos do político gaúcho, que fez história governando o estado do Rio de Janeiro.

Foi a solução. O Brizola me disse: Você, que é o rei do concreto, não poderia fazer uma obra usando somente concreto? . Sentei com o Sussekind (José Carlos Sussekind, calculista da equipe de Oscar Niemeyer há mais de três décadas) e desenhamos o projeto no feriado de 7 de setembro de 1983. Quatro meses depois tudo estava pronto recorda Niemeyer.

Do projeto original, muitas propostas em relação ao Sambódromo não saíram do papel da forma idealizada, como o Museu do Samba, que deveria funcionar a todo vapor no espaço localizado abaixo da Apoteose. O museu está lá. Mas sem os cuidados necessários a uma instituição destinada a preservar a memória cultural do país.

Resumindo: não há estrutura que possibilite o ordenamento de informações do gênero musical e também de uma das maiores festas populares do mundo. De fato, combinar três finalidades totalmente distintas numa mesma obra tem suas complexidades. O Sambódromo foi projetado para aliar a pista de desfile à grande estrutura de um centro educacional para 16 mil alunos e à construção de um anfiteatro com capacidade de acomodação para 30 mil pessoas.

O fato é que funciona. Serve à cultura e à educação. Tanto é assim que acabei de finalizar o projeto do Sambódromo de Brasília. Então, obviamente, o espaço é proveitoso. Hoje, com o crescimento da festa e o transtorno que gera no Centro do Rio, a Barra talvez fosse a melhor opção pontua.