A volta da Grande Depressão?

Douglas A. Irwin *, Jornal do Brasil

EUA - A atual crise econômica e financeira global desencadeou muitas comparações com a Grande Depressão da década de 1930. Felizmente, os governos parecem determinados a evitar os erros do passado. As autoridades não apenas responderam ao declínio com agressivas políticas macroeconômicas e intervenções nos mercados financeiros, como líderes políticos fizeram apelos contra a imposição de novas restrições ao comércio internacional.

Infelizmente, tais apelos talvez não sejam suficientes para conter o avanço do protecionismo frente a uma enorme crise econômica.

Os líderes mundiais de 1930 não eram cegos ao custoso protecionismo que assolava o planeta naquela época. Em setembro de 1929, a Liga das Nações recomendou que seus países membros concordassem em uma trégua tarifária , em que as taxas não aumentariam por um período de dois a quatro anos. Uma conferência foi agendada com esse propósito, mas fracassou à medida que países do centro e leste da Europa abraçavam um intensivo protecionismo agrícola ante o agudo declínio nos preços das commodities.

Alguns países ratificaram a trégua, mas o ato teve efeito pequeno nas políticas subsequentes. Pelo contrário, conforme o colapso se intensificava em 1931 e 1932, as nações recorriam a barreiras comerciais ainda mais duras, em uma tentativa desesperada de reativar economias e promover o emprego internamente. E o tiro saiu pela culatra. Bloquear importações para expandir o emprego doméstico falhou porque as importações de um país são as exportações de outro. O efeito combinado dessas políticas foi simplesmente o colapso do comércio mundial e o aprofundamento da situação econômica.

O volume de comércio mundial caiu pela metade. As barreiras acumuladas no início da década de 30 não desapareceram quando a recuperação teve início. Pelo contrário, atrasaram o processo. Quando a oferta mundial se recuperou na segunda metade da década, o comércio não chegou nem ao nível do pico de 1929. O Gatt (Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio, que precedeu a OMC) precisou de décadas para desfazer os danos acumulados pelas barreiras no período entre guerras.

Deve-se ressaltar que o cenário atual é muito diferente daquele da década de 1930, e isso é um augúrio positivo para a prevenção de outra onda protecionista. Os países têm mais instrumentos políticos à disposição. Os governos da época não assumiram responsabilidade de resgatar instituições financeiras e eram incapazes de seguir políticas monetárias para compensar a deflação por causa de taxas fixas de intercâmbio sob o padrão ouro. De fato, os países que permaneceram por mais tempo no padrão ouro foram os que impuseram as mais draconianas restrições.

Atualmente, acordos da OMC impedem o uso de políticas comerciais tão relativistas pelos países membros. Economias tentadas a violar esses acordos não podem ter ilusões de que conseguirão evitar a rápida retaliação de outras nações. O investimento estrangeiro transformou a economia mundial. Corporações ao redor do mundo tornaram-se tão multinacionais nas operações de produção que têm um interesse fixo em resistir ao protecionismo. Indústrias que lutaram com a concorrência das importações no passado descobriram que a diversificação internacional e joint ventures com parceiros de fora são saídas mais lucrativas que simplesmente parar as mercadorias na fronteira. Além disso, muitas indústrias domésticas não têm mais o incentivo de pedir restrições às importações porque os rivais estrangeiros produzem no mercado doméstico. Por exemplo, diferentemente do início dos anos 80, a indústria automobilística americana não está pedindo por proteção tarifária porque isso não resolveria nenhum dos problemas das empresas. A indústria está diversificada em outros mercados, e firmas estrangeiras operam com produção em larga escala nos EUA.

Esses fatores-chave distinguem a era presente do passado, sustentam o suporte político para um sistema aberto de comércio e, até aqui, preveniram o recuo da globalização. Entretanto, os líderes mundiais devem permanecer vigilantes quanto à tentação de deslizar rumo ao protecionismo. Países como a Rússia já destoam do apelo do G-20. Além do mais, esse apelo presumivelmente não inclui medidas antidumping, que são uma forma legal, de acordo com a OMC, de protecionismo administrativo. Ainda assim, há ampla margem para esperarmos que a crise econômica atual, diferente da Grande Depressão, não será marcada pelo espalhamento do nacionalismo economicamente nocivo.

* Douglas Irwin é professor no Departamento de Economia do Dartmouth College e editor do World Trade Review.

Artigo originalmente publicado em Reproduzido sob permissão.