A inquietude de Beckett

Sérgio Britto, JB Online

RIO - Silêncio extraordinário essa noite, estico o ouvido e não ouço nem um suspiro. A velha Miss McGlome sempre canta a essa hora. Mas essa noite não. Canções do tempo em que era mocinha, ela diz. Difícil é imaginá-la mocinha. Velha maravilhosa, entretanto. Connaught, tenho a impressão. (Pausa) Será que vou cantar quando tiver a sua idade, se um dia eu tiver a sua idade? Não. (Pausa) Será que eu cantava quando era rapaz? Não. (Pausa) Será que algum dia cantei? Não . (A Úútima gravação de Krapp, Samuel Beckett)

Neste momento em que estamos todos, no Brasil, entrando no período de Carnaval a festa da liberação, da ausência de freios, do vale-tudo, da inconsequência permitida, do é hoje só, amanhã não tem mais me pus a pensar num fenômeno que detectei na primeira temporada de A última gravação de Krapp/Ato sem palavras 1, peças de Samuel Beckett que encenei ano passado e que volto a encenar agora, dia 13. Ao contrário do que se pode imaginar nesses dias de folia, e em todos os dias na atualidade, a receptividade da plateia renegou uma espécie de sede de entretenimento que aparentemente toma conta de tudo nas atividades ditas culturais. A sensação que se tem é a de que hoje só se procura o lazer e não o questionamento.

Bom, explico para quem não assistiu. O que se vê no palco é um homem arrastando os pés pelo pequeno escritório repleto de sombras, escavando o passado registrado em gravações dele mesmo nas velhas fitas de rolo. Da fala gravada saltam imagens antigas e, no palco, ele derrama amarguras. Esse é Krapp, personagem de uma das criações do extraordinário Samuel Beckett, dramaturgo irlandês nascido em 1906 e morto em 1989. No outro segmento, o deserto implacável é o cenário da impotência de outro homem, que não alcança sombra, água e a ele é negado todo poder e toda autonomia: ele é um joguete. Beckett não facilita. Como diz a diretora Isabel Cavalcanti, ele não propõe nenhuma solução: diz que a arte deve abarcar o caos . E a plateia aceitou esse mergulho comigo no mundo de Beckett. Mais do que isso, vi na plateia centenas de jovens interessadíssimos nas questões que o autor de Esperando Godot coloca. Não é conto de fadas, não tem final feliz, sequer tem final é um trabalho de impacto incalculável, porque justamente alcança nossa humaníssima e permanente dúvida.

Incrível o interesse desses muitos jovens na plateia de Beckett num mundo que hoje parece confundir entretenimento com arte e cultura, que vê o teatro, em especial, como uma espécie de exercício de escapismo. Perguntei a Isabel o que ela achava. Resposta dela: A arte serve para indagar, questionar o status quo, inquirir, propor questões, balançar o coreto; o sujeito faz arte porque a realidade é inquietante para ele , disse a minha diretora. E a juventude está ligada nisso, o jovem é um ser inquieto .

Sylvia Plath, a poeta americana que se matou jovem, escreveu uma vez: A arte é roubo, a arte é assalto à mão armada, a arte não é agradar a sua mamãe . Ou seja, toda a gama de sentimentos humanos tem de estar na arte, e mais ainda no teatro. E a plateia dessa montagem de Beckett prova que há um número muito animador de jovens interessados no mais amplo espectro dessa manifestação.

Vou pedir a ajuda da minha diretora mais uma vez para encerrar esse pequeno pensamento ela fala de Beckett como ninguém. Ele é o maior poeta da cena do século 20; tira todas as nossas garantias, físicas e materiais, e expõe a potência da nossa mente reflexiva. Ninguém fala com tanta ironia, compaixão e maravilhamento da nossa fragilidade, da nossa patetice. Ele faz da nossa impotência uma potência. Só mesmo um sujeito que ame muito a condição humana para falar com tamanha poesia e crueza do ser humano . E uma grande felicidade é ver que o público carioca, inclusive os jovens na platéia, entende isso.

* Ator e diretor teatral