Arroio Fundo, um estudo

Mário Moscatelli*, JB Online

RIO - A melancólica novela da construção da unidade de tratamento do arroio Fundo, que tem tudo para terminar com a nova gestão municipal, após um ano e meio de completo abandono, demonstra como os assuntos ambientais são tratados pelas autoridades.

A questão do arroio Fundo, o maior valão de esgoto in natura que alimenta com milhares de metros cúbicos de esgoto por segundo o sistema lagunar da baixada de Jacarepaguá, é o claro quadro de incapacidade gerencial e certeza da impunidade que as autoridades públicas até então têm tido em relação com as questões de natureza ambiental em nossa cidade.

Visando reduzir a fedentina proveniente do arroio Fundo que passa na periferia da Vila do Pan, a UTR do arroio Fundo, em tempo recorde foi instalada provisoriamente visando principalmente reduzir a eliminação constante de metano e gás sulfídrico das pútridas águas do valão. Apesar dos excepcionais resultados obtidos, seja na redução da eliminação dos gases como da transformação do esgoto em água, como eu antevia, finalizado o Pan, a estação foi abandonada à própria sorte. R$ 10 milhões de dinheiro público ficaram navegando no meio de fezes, lixo e vegetação por um ano e meio.

Depois de muitas reuniões e principalmente desrespeitos para com prazos estabelecidos, foi preciso a mudança de governo para que o processo de fato deslanchasse.

Há de se destacar a atuação interessada e enérgica do Ministério das Cidades e do MP no que se refere à solução do problema, diferente do posicionamento excessivamente burocrático e arrastado tanto da administração municipal passada como do Ministério dos Esportes.

Dentro deste contexto, é triste pensar que enquanto a administração municipal passada torrava meio bilhão de reais nas obras inacabadas da Cidade da Música , a estação do arroio Fundo jazia morta abandonada pela falta de vontade política de administradores públicos.

Fruto dessa miopia característica de boa parte da classe política e do estado catatônico da sociedade em dar respostas contundentes nas urnas aos maus políticos, os problemas ambientais dessa cidade só tem aumentado. Exemplo disso é o atual estado de completa degradação do sistema lagunar da baixada de Jacarepaguá, transformado numa gigantesca latrina, semelhante às baías de Guanabara e Sepetiba. Destaca-se o atual estado de sufocamento da laguna da Tijuca, principal via de escoamento das águas do sistema lagunar, transformada num canal raso e imundo, onde 80% de seu espelho dágua se transformaram em ilhas de lixo e lama.

As raízes da tragédia ambiental da cidade são claras. Falta de políticas de habitação, transporte, saneamento, planejamento familiar, educação durante décadas.

Há jeito? Claro que há! Mas não há mágica. Ordenadação do uso do solo, implementação, articulação e potencialização das políticas públicas entre as diversas esferas do poder executivo, fiscalização do uso dos recursos públicos, fiscalização constante sobre a atuação dos administradores públicos, exigência da apresentação de resultados práticos das políticas públicas em execução e principalmente exigir qualidade pela derrama de impostos abusivos pagos e que, na maioria das vezes, pouco ou nada revertem para a melhoria da qualidade vida de nossa população.

Por fim o que precisa ficar claro para todos é que a paciência da Natureza já chegou ao seu fim.

E para aqueles burrocratas que afirmam que faltam recursos para o meio ambiente, tenho certeza que nunca houve ou há falta de recursos nos polpudos cofres do poder público. O que sempre houve e haverá é a falta de vontade política. Disso eu tenho certeza!

*Mário Moscatelli é ambientalista e professor