Uma crítica ao ataque de Israel a Gaza

Luiz Pinguelli Rosa *, Jornal do Brasil

RIO - Na Coppe trabalham e estudam brasileiros de origem ou de religião judaica e descendentes de imigrantes de países árabes. Eles, ao lado de outros brasileiros e estrangeiros que escolheram o Brasil para viver, construíram uma instituição que é um orgulho para o país e que comemorou 45 anos ao longo do ano de 2008 com participação de ministros Sergio Rezende, Celso Amorim e Mangabeira Hunger da ex-ministra Marina Silva, e intelectuais do porte de Oscar Niemeyer, Antonio Negri, da Itália, e Michael Hardt, dos EUA, além de dirigentes de instituições da área de ciência e tecnologia e empresas.

Não posso deixar de me manifestar neste momento, condenando o ataque militar maciço de Israel à Faixa de Gaza, pertencente à Palestina, matando indiscriminadamente várias centenas de pessoas em poucos dias, inclusive muitas crianças. A população civil desarmada está sendo punida porque o Hamas venceu uma das raras eleições realizadas no mundo árabe.

Esse tipo de violência brutal é completamente desproporcional como resposta aos ataques de foguetes de pequeno poder explosivo disparados de Gaza por setores ligados ao Hamas, que também devemos condenar, pois atingem civis no território de Israel.

O massacre de populações como punição e para abater o moral do inimigo é uma prática condenável na guerra moderna. Os nazistas fizeram isso, por exemplo, nos bombardeios a Londres com os foguetes V1 e V2 desenvolvidos por Werner Von Braun, que depois trabalhou para os EUA, na Guerra Fria. Os nazistas eram abomináveis, foram algozes da esquerda européia e dos judeus. Entretanto, ingleses e norte-americanos fizeram bombardeios de saturação de cidades alemãs, atingindo zonas residenciais com bombas incendiárias, projetadas para penetrar nas casas de dois andares e explodir no solo, de modo a destruir todos os cômodos e aniquilar famílias inteiras, como narra o livro O incêndio, de Jorg Friedrich, traduzido no Brasil. Nem mesmo a violência nazista justifica eticamente o massacre da população alemã.

As bombas nucleares lançadas em Hiroshima e Nagasaki, quando o Japão já estava à beira da rendição, são outro exemplo ruim. Como membro do Movimento Pugwash de Cientistas pela Paz, fundado por Einstein e Bertrand Russell, assisti em Hiroshima, nos 50 anos da destruição da cidade, a um debate em que o físico Joseph Rotblat argumentou que não era necessário o uso da bomba nuclear. Por ser contra seu emprego no Japão, ele saiu com Niels Bohr do projeto Manhattan, da bomba nuclear, quando os alemães capitularam. Rotblat ganhou o Nobel da Paz pouco depois de visitar a Coppe, aonde posteriormente voltou, sendo recebido pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso. Acompanhei-o ao encontro, testemunhando seu pedido de adesão ao Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares.

Israel tem bombas nucleares não declaradas. Há acusações na imprensa de que armas proibidas por convenção internacional estão sendo usadas pelas forças israelenses, como bombas de fósforo. Uma foto publicada mostra a explosão de uma bomba, bem acima do solo, lançando uma chuva de fragmentos. Bombas de fragmentação ou Schrapnel, nome de seu inventor, também são condenadas. Alguns interpretam que o governo de Israel fez o ataque para ganhar apoio popular nas eleições de fevereiro, tal como ocorreu com Bush no caso do Iraque, e para criar um fato consumado no apagar das luzes do atual governo dos EUA, antes da posse de Obama.

É lamentável a posição do governo norte-americano de apoio incondicional ao ataque israelense, bloqueando, inicialmente, no Conselho de Segurança da ONU, uma resolução para impor o cessar-fogo. Ao mesmo tempo é decepcionante a posição de Obama, cuja eleição pelo povo americano deu tanta esperança ao mundo.

Foi correta a posição diplomática brasileira contra a guerra em Gaza, buscando articular-se internacionalmente. A posição do presidente da República Checa, que tem no momento a representação da União Europeia, beira o ridículo. A França age por conta própria, em uma tentativa de mediação junto com o Egito, enquanto a China pouco fez até agora, exercendo um papel político desproporcionalmente menor do que sua importância econômica no mundo. A Venezuela, ao contrário, extrapolou o seu papel.

Não há um exército, uma marinha e nem uma força aérea de Gaza a serem derrotados pela máquina de guerra de Israel. Há militantes dispersos na população e não há como atingi-los sem exterminar junto com eles os civis. A ineficácia de ações militares para levar à paz em situações desse tipo ficou provada no Iraque. O resultado provável será o recrudescimento do terrorismo. Afinal, a guerra é o terrorismo dos países poderosos.

O conflito entre Palestina e Israel, historicamente criado por culpa, em boa parte, das potências ocidentais, com os EUA à frente, não será resolvido pela força nem a favor de um lado nem do outro. A situação atual é insustentável e exige uma solução política e não militar.

* Professor da Coppe/UFRJ