Dengue: uma ameaça crescente

Roberto Medronho*, Jornal do Brasil

RIO - No verão passado, o estado do Rio sofreu a mais grave epidemia de dengue de sua história. Além disso, um grande número de crianças foi atingido, fato inusitado. A combinação desses dois eventos mobilizou a sociedade e aumentou a percepção da necessidade de uma política mais eficiente de controle desse importante problema de saúde pública. Percebendo essa questão, muitas campanhas eleitorais abordaram explicitamente a questão da dengue espera-se que agora os eleitos implementem suas propostas.

A própria mídia começou a alertar a sociedade sobre a doença bem antes do início do verão. Os governos estão mais atentos, a classe produtiva está se mobilizando e a sociedade está cada vez mais informada, cobrando soluções e cuidando do seu quintal, literalmente.

Toda essa mobilização é alvissareira. Entretanto, há muito por fazer. A dengue não é uma doença de fácil controle. Mesmo em países que instituíram um rígido controle, como Singapura, têm sofrido com epidemias. Além das questões climáticas, a urbanização desordenada, a grande aglomeração populacional, as deficiências no suprimento de água, a ausência de destino adequado do lixo com o acúmulo de recipientes plásticos não biodegradáveis no ambiente são macrofatores que favorecem a proliferação do Aedes aegypti.

Estes macrofatores estão presentes em todas as grandes metrópoles do País. Por tudo isso, costuma-se dizer que a dengue é um problema que se expressa na saúde, mas não é exclusivo dela. Além disso, a facilidade de transporte e as intensas relações comerciais e turísticas entre os países favorecem a introdução de novo sorotipo da dengue em regiões com grande número de indivíduos suscetíveis. Aliado às deficiências no controle do mosquito, isso acarretará uma nova epidemia explosiva da doença.

O grande fluxo comercial e turístico na região metropolitana do Rio de Janeiro explica em parte o porquê de o vírus ter sido isolado inicialmente nesta região. Deve-se ressaltar também que o sorotipo 4, o último que ainda não chegou ao nosso estado, está circulando em países fronteiriços, como a Venezuela. Em função de não existir tecnologia para deter sua entrada no país, pode-se afirmar que ele vai chegar, apenas não se sabe precisar exatamente quando.

Neste verão, nosso estado não terá um processo epidêmico semelhante ao do verão passado. É uma boa notícia. Entretanto, isso não se deu em função de um controle eficiente do Aedes e sim porque o número de indivíduos suscetíveis ao sorotipo circulante em nosso estado, o 2, diminuiu muito nas regiões atingidas pela última epidemia. Essa é uma má notícia.

Isso significa que a ameaça da dengue continua. As áreas que ainda não foram muito atingidas em 2008 e que possuem um elevado índice de infestação do mosquito correm risco de epidemias neste verão. Justamente nestas áreas deve-se intensificar o combate ao vetor e capacitar os profissionais de saúde e organizar os serviços. Caso não seja possível deter um processo epidêmico, deve-se ter o compromisso ético e moral de evitar ao máximo o óbito.

O combate ao Aedes é o único elo passível de intervenção no controle da dengue, pois não existe vacina ou tratamento específico.

A sociedade não suporta mais a discussão sobre quem é o responsável pelo mosquito. É fundamental a construção de uma sólida aliança para além de qualquer divergência ou vaidade. O inimigo é comum e tem demonstrado mais competência do que nós.

* Professor e epidemiologista da UFRJ