A vitória começa dentro de casa

Editorial , Jornal do Brasil

RIO - Basta chegar o verão, e o tema dengue retorna à pauta das autoridades sanitárias de estados e municípios. É a época em que a combinação de calor e pancadas de chuvas torna ainda mais propício o desenvolvimento das larvas do mosquito Aedes aegypti e a atual estação tem sido exagerada, principalmente no item chuva. No Rio, volta a se falar em controle biológico da doença, com a aplicação de larvicidas à base de uma bactéria que atua no nascedouro dos insetos. Essa e todas as medidas oficiais são bem-vindas, mas sem o pleno engajamento da população será muito difícil acabar com esse drama.

Em 2007, o número de infectados pelo Aedes chegou a 135 mil no país. No ano passado, apenas nos meses de janeiro e fevereiro, o Rio de Janeiro contabilizou 35 mil novos casos. São números que evidenciam a dimensão do que, sem exagero, pode ser chamado de uma situação de emergência. E, se é emergência, todos precisam dar sua contribuição para a solução do problema um bom exemplo é o que aconteceu nas grandes guerras mundiais, nas quais os Estados europeus convocavam os homens para o front, enquanto as mulheres tocavam a produção das fábricas e cuidavam das crianças.

No caso da dengue, a participação coletiva não precisa ser tão traumática como no exemplo acima. Basta haver consciência do perigo e da necessidade de difusão de informação. Não deixar água acumular em recipientes grandes ou pequenos ela ficaria parada, num ambiente perfeito para o desenvolvimento das larvas é importante. Outra medida que depende da sociedade é informar as autoridades sobre locais onde haja a tal água parada mesmo que seja fora da própria residência. São duas ações que, se repetidas em larga escala, tornam o combate à dengue muito mais eficaz do que se for só o Estado agir.

O controle biológico que volta a ser discutido ajudou países como Cuba a praticamente acabarem com o transmissor da dengue. As pesquisas no Brasil vêm desde 2002, e resultaram num produto cuja fórmula contém a bactéria Bacillus thuringiensis, que age especificamente sobre as larvas do inseto (servindo-lhes de alimento), não causando danos a outros organismos. Em seu intestino, uma proteína é ativada, produzida e liberada pela bactéria, tornando-se tóxica ao seu hospedeiro. Como a fórmula não tem efeito sobre os insetos adultos, ela deve ser aplicada em água parada, onde as larvas desse mosquito se desenvolvem, eliminando-as em 24 horas.

Ou seja: para que mais essa tecnologia contra o mosquito seja eficaz, aplicando o remédio nos locais com água parada para matar as larvas, é preciso que a população receba os agentes e não tranque as casas ou finja que não está nelas, às vezes com medo de que sejam assaltantes disfarçados e tenha também o espírito que baixou na sociedade em 1985 (com os famosos fiscais do Sarney , que impediam as remarcações de preços nos supermercados) fiscalizando os locais com existência potencial de focos. Sem se esquecer de manter a atenção sobre plantas, pneus velhos e locais que possam se tornar uma trincheira inimiga dentro de casa.

A dengue é um rival traiçoeiro. Num primeiro momento exatamente quando é mais fácil ser ele vencido com ações preventivas é invisível. Quando se torna visível, na figura do mosquito, as ações já têm de ser emergenciais. É preciso, pois, acabar com o Aedes antes que ele acabe conosco.