Eleição: População do Rio unida pelos mesmos problemas

Paula Máiran e Pedro Vieira, Jornal do Brasil

RIO - Muito se falou nos últimos três meses em propostas de campanha para unir a cidade há tempos partida. E haja promessas de tornar realidade a tão sonhada integração urbana e social. Em ronda pelo Rio, o Jornal do Brasil constatou, no entanto, que a cidade já pode se declarar unida, ao menos no que se refere aos muitos problemas em comum da população, seja nas zonas Norte, Oeste ou Sul. Entre tantas mazelas, o JB flagrou a realidade de quem enfrenta em seu cotidiano, aqui e acolá, esgoto a céu aberto; transporte, educação e saúde em níveis sofríveis e espaço urbano fora da ordem municipal.

Por detrás do mosaico formado por tantos problemas da cidade, a arquiteta e urbanista Vera Regina Tângari, professora da UFRJ, enxerga um passado de omissão do poder público.

Vejo esta omissão na gestão de aspectos socio-econômicos fundamentais para uma sociedade como a nossa, que apresenta elevada concentração de renda: cidadania, habitação, transportes, educação, saúde e saneamento afirma ela. O reflexo dessa omissão se concretiza na paisagem da cidade, que exprime com clareza todas as contradições desse processo.

Embora haja problemas semelhantes em todo canto do Rio, a pesquisadora alerta, porém, para o fato de persistir histórica diferenciação no tratamento, na aplicação de recursos, na fiscalização, na gestão e na administração de serviços e equipamentos dispensados em partes distintas da cidade:

Os bairros do Centro, Zona Sul e Barra da Tijuca, que concentram as menores parcelas da população, recebem a maior parte dos recursos e cuidados, se comparados aos bairros das zonas Norte e Oeste, onde mora a maioria dos cariocas.

Mas Vera aponta o rumo para possíveis soluções:

Aprender a conhecer, a ouvir e a discutir com a população, lidando com as contradições, e não apenas com os consensos, do espaço urbano, e também com as leituras e olhares diferenciados que enxergam a cidade, seus conflitos e problemas, e também as suas potencialidades, antes que essas acabem.

E, neste momento eleitoral, a urbanista lamenta o efeito da política na gestão da cidade:

Quando as questões partidárias e de relacionamento sobrepassam as questões técnicas, ocorrem distorções que tornam a gestão pública deficitária e ineficiente.

O ambientalista Ricardo Portugal lembra que não é só a prefeitura a responsável pela cidade.

Cabe ao prefeito estimular a educação ambiental para que as pessoas tenham conscientização. Por mais que seja responsabilidade do poder público combater a poluição, a população também tem culpa nesse processo. Precisa se mobilizar e lutar por seus interesses, cobrar do poder público a parte que lhe cabe.

Em alguns casos, a solução pode ser mais simples do que parece. É o que afirma o engenheiro de trânsito Fernando MacDowell.

Uma simples reorganização das estruturas viárias permitiria ao carioca, por exemplo, não perder tantas horas no trânsito ensina, seguro de haver solução à vista ao menos para esse problema.