Na Mangueira, um exemplo a ser seguido

Angélica Paulo , JB Online

RIO - À primeira vista o jeito sereno e a voz calma de Sonia Regina Correia de Almeida, ou dona Sonia, como é carinhosamente chamada pelos funcionários do barracão da Estação Primeira de Mangueira, pode dar a impressão de que seu trabalho não exige muita responsabilidade. Ledo engano. Acostumada a pegar no pesado, Sonia comanda uma equipe de 50 pessoas, que vão desde costureiras até ferreiros. É ela quem projeta os carros alegóricos da verde-e-rosa com pulso firme, porém sem perder a ternura.

Sua história começou anos atrás. Única filha de pai militar, Sonia teve uma criação rígida e surpreendeu toda a família quando decidiu fazer faculdade de engenharia elétrica. No início, foi motivo de piada entre os amigos do pai. Mas não se deixou abater, enfrentou os preconceitos e conseguiu o diploma universitário.

- Não se pode esperar nada cair do céu. Se não corrermos atrás, nunca conseguiremos conquistar nossos objetivos ensinou.

Já formada, conseguiu emprego na rede ferroviária, onde ficou até 1990, ano em que entrou em vigor o Plano Collor, conjunto de reformas econômicas e planos para estabilização da inflação que, além de congelar poupanças, fez parar toda a parte operacional do país. À época, diversas pessoas ficaram desempregadas, entre elas, a própria Sonia.

Longe de se desesperar, ela viu no desemprego a oportunidade de se engajar de vez no Carnaval, com quem já flertava desde a época da faculdade, quando fundou a ala Paulo Ramos, na Mangueira. Mas sua primeira experiência foi na Unidos do Viradouro, em 1991, onde seu marido trabalhava como diretor. No ano seguinte, foi vencedora do Grupo de Acesso, assinando o carnaval da Grande Rio, que foi para o Grupo Especial com o enredo Águas Claras para o Rei Negro .

- Foi uma grande conquista para mim. Infelizmente, já no Grupo Especial, a escola precisava de um nome de peso como carnavalesco e não pude ficar no cargo contou sem, no entanto, demonstrar ressentimentos.

De lá para cá, atuou na Unidos da Ponte e Beija-Flor. Ficou um tempo longe da folia, até ser convidada pelo carnavalesco Max Lopes, em 2006, para assessora-lo na Mangueira.

- Eu vinha apenas como costureira, para fazer as fantasias da ala das baianas ou das passistas. No final das contas, acabei confeccionando as roupas das passistas, das baianas e até da bateria revelou.

Em 2007, o carnavalesco pediu que Sonia supervisionasse os projetos dos carros alegóricos, tarefa prontamente aceita. Mas quis o destino que o chefe dos ferreiros tivesse um problema de saúde, fazendo com que a ex-funcionária da rede ferroviária assumisse mais esta função. O posto, porém, não agradou a todos e a cobrança surgiu como conseqüência natural do novo cargo.

- A pressão é muito grande. Por ser mulher, as pessoas costumam olhar para mim com desconfiança, então tenho que provar, mais do que nunca, que sou capaz afirmou Sonia, contando também que recebe apoio de toda a diretoria, mas que nem isso evitou problemas com alguns profissionais.

- Claro que tive problemas, mas costumo dizer que somente o mal profissional é que reclama. Quem realmente se dedica e sabe o que faz, vai seguir o que você pede. Se por acaso não concordar com o que está fazendo, vai argumentar. O profissional ruim não tem argumentos explicou.

Dedicando-se 24 horas por dia à escola, a projetista diz não ter tempo nem para os filhos, que apesar de também desfilarem pela escola, reclamam da ausência da mãe em casa. Acostumada à rotina puxada, quando que chega a dormir por semanas no barracão para adiantar os trabalhos, ela só reclama do intervalo pequeno entre réveillon e carnaval, neste ano.

- É horrível trabalhar com um prazo de tempo tão apertado. Em outros anos, sempre tínhamos dez, quinze dias de fevereiro pra trabalhar. Este ano, estamos em cima para o Carnaval finalizou.