‘A Mãe’, com Marcela Cartaxo, terá estreia mundial na Espanha

Filme de Cristiano Burlan participará do Festival de Málaga; o diretor falou ao JB

Foto: Bela Filmes/divulgação
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A 25ª edição do festival começa dia 18 e vai até 27 de março. Selecionado para a mostra oficial, onde concorre ao prêmio de melhor filme iberoamericano, ‘A Mãe’ estreará dia 21, às 16h, no majestoso Teatro Cervantes, um dos mais celebrados da cidade.

A história segue Maria, uma migrante nordestina que vive na periferia de São Paulo e trabalha como ambulante no centro da cidade. Após um dia exaustivo, ela volta para casa e não encontra seu filho adolescente, Valdo. Depois de procurar na vizinhança e na polícia, onde não obtém nenhuma resposta, ela procura o traficante local e ele a informa que supostamente seu filho foi assassinado pela polícia. Incrédula, Maria inicia uma busca incessante para descobrir o paradeiro de Valdo.

Protagonizado por Marcélia Cartaxo, o filme é um mergulho intimista na vida e no luto de uma mulher que, ao saber da tragédia com seu filho, precisa enfrentar a burocracia opressora das grandes metrópoles para poder vê-lo uma última vez.

Desde o início do projeto, Cristiano sempre teve em mente o rosto de Marcélia, um semblante que reflete seu viés combativo, mas também a ternura que o papel exige.

Marcélia tem de fato esse talento. Sua estreia, que teve início em 1985 com “A Hora da Estrela”, de Suzana Amaral, lhe deu um dos mais cobiçados prêmios do mundo: o de melhor atriz no Festival de Berlim interpretando Macabéa, que é considerada a personagem mais comovente do Cinema Brasileiro. O filme, que estava se perdendo, foi restaurado pelo Centro de Pesquisadores do Cinema Brasileiro (CPCB), em 2009, e teve memoráveis relançamentos em várias cidades brasileiras.

Numa vitoriosa trajetória de 55 créditos, mais recentemente, Marcélia também nos brindou vivendo “Pacarrete”, de Allan Deberton, o filme brasileiro mais premiado de 2020.

Além de Marcélia, “A Mãe” também traz no elenco Helena Ignez, Dunstin Farias, Rubinho, Carlos Meceni, Hélio Cícero, Henrique Zanoni, Ana Carolina Marinho, entre outros.

O longa foi rodado em janeiro de 2020 em São Paulo e dá continuidade ao trabalho desenvolvido por Burlan, através de documentários e ficções para trazer humanidade para as populações periféricas, como é ressaltado por ele no texto de divulgação do filme.

“Meu irmão foi morto pela polícia; dois anos depois, fiz o documentário ‘Mataram meu Irmão” (2013). Minha mãe foi assassinada pelo namorado; em 2017, realizei “Elegia de um Crime”. Minha história não é uma exceção. A impunidade, o preconceito, a desigualdade e os governos transformam essas vidas em números. Mas, por trás das estatísticas, existem irmãos, amigos, mãe e filhos”, destaca o Burlan, nascido em Porto Alegre, que é também professor e diretor teatral.

No cinema realizou mais de 20 filmes, entre eles a Tetralogia em Preto e Branco – composta por “Sinfonia de um Homem Só” (2012), “Amador” (2014), “Hamlet” (2014) e “Fome” (2015) – premiada no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.

“Mataram Meu Irmão” foi o vencedor do Festival É Tudo Verdade 2013 e, no mesmo ano, ganhou o prêmio do júri oficial e da crítica no 40º Festival Sesc de Melhores Filmes e o prêmio Governador do Estado de São Paulo para a Cultura.

Como é usual em seus filmes, o cineasta gaúcho utiliza as palavras para desenvolver seu roteiro, mas foca fortemente nas imagens para ilustrar e fortalecer a mensagem que quer passar. Burlon tem o talento para mesclar, com maestria, a condução da narrativa e a denúncia que quer fazer, de modo que, através de uma história particular, surja a universalidade do que está expondo.

Em entrevista ao JORNAL DO BRASIL, o cineasta falou sobre o filme, a escolha de Marcélia para protagonista e como acha que o filme pode mudar esse quadro adverso.

 

JORNAL DO BRASIL – Sabe-se que você foca seu trabalho em populações oprimidas pela desigualdade, preconceito e impunidade, muitas vezes em decorrência de um fato trágico como aconteceu em “Mataram meu Irmão” e “Elegia de um Crime”. Neste agora, qual a maior motivação para realizá-lo?

CRISTIANO BURLAN - “A Mãe”, apesar de ser um roteiro de ficção, parte do meu desejo em seguir denunciando a letalidade da força policial nas periferias e o círculo de violência e abandono do poder público diante dos problemas de inúmeras famílias pobres. A personagem de Marcélia é um pouco da minha mãe, que perdeu o filho nas mãos de uma milícia do Capão Redondo, é um pouco de tantas mães que seguem perdendo seus filhos pela violência do estado. Vivemos uma guerra civil em que corpos periféricos seguem sendo o principal alvo.


Marcélia já era um nome em sua mente para protagonizar “A Mãe” quando decidiu realizá-lo?

“Sim, o filme foi roteirizado por mim e Ana Carolina Marinho tendo a Marcélia sempre como a personagem da mãe. Escrevemos para ela. O rosto de Marcélia era a força motriz para nossa construção. Marcélia é um acontecimento.


Além das dificuldades normais que o cinema brasileiro precisa enfrentar, para esse filme vocês conviveram com mais uma: a pandemia. Como conseguiram se organizar para esse desafio?

“Terminamos as gravações uma semana antes de iniciarmos a quarentena no Brasil. As dificuldades – e foram muitas – vieram na distribuição do filme. São muitos filmes represados pela pandemia, com dificuldade de lançamento, de circular. As salas de cinema seguem vazias, apesar dos filmes em cartaz. Fico na torcida para que a vacinação se amplie, a pandemia fique controlada e possamos voltar às salas de cinema sem receios.


O cinema tem o poder de mudar cabeças e alterar comportamentos. Em que você acha que o filme pode contribuir para transformar esse quadro tão desalentador?

“Acredito que o cinema pode ser um despertar para uma tomada de consciência, para colocar os espectadores no lugar da personagem e de seus dilemas. Acredito no filme como uma denúncia, a história de Maria é também a história de Débora Silva, uma das mães de maio, que inclusive é personagem no filme. Espero que o público termine de assistir com o incômodo de saber que aquela história não acabou na sala de cinema, infelizmente ela continua fora da sala com muitas mães e filhos. Só denunciando e falando sobre isso conseguiremos desnaturalizar esse terrorismo do Estado.

 

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