A celebração da diferença num país marcado pela exclusão

Filme sobre transexuais ‘foi censurado pelo presidente Bolsonaro’, diz diretor

Foto: Juno Braga e Linga Acacio
Credit...Foto: Juno Braga e Linga Acacio

“Transversais”, documentário de Émerson Maranhão e produzido por Allan Deberton, terá estreia mundial na 45ª edição da Mostra Internacional de São Paulo, que acontece de 21/10 a 3/11.

O filme aborda os desafios do que é ser transexual, através da história de cinco pessoas que, de diversas formas, enfrentam o estranhamento, a incompreensão e o preconceito. Érikah é professora; Caio José é paramédico; Samilla é funcionária pública; Kaio Lemos é pesquisador acadêmico; Mara é jornalista e mãe de uma adolescente. Os cinco têm origens, formações e classes sociais diferentes. Em comum o fato de terem suas vidas atravessadas pela transexualidade.

“Transversais” foi filmado em fevereiro de 2021, quando a 2ª onda da Covid-19 avançava no país, o que obrigou o diretor a readequar a produção do filme.

Maranhão nasceu em Arapiraca, no agreste alagoano, e há 23 anos atua na área. É graduado em Comunicação Social pela Universidade Federal de Alagoas (UFAL), em 2021 foi o único brasileiro indicado ao prêmio Freedom of Expression Award, disputando a categoria de Arte. “Transversais” marca sua estreia em longas-metragens.

 

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Caio José é paramédico (Foto: Foto: Juno Braga e Linga Acacio)

 

Deberton, além de produtor, é diretor de títulos com muitas passagens por festivais nacionais e internacionais, entre eles, “Pacarrete”, o filme mais premiado do ano e favorito ao Troféu Grande Otelo, outorgado pela Academia Brasileira de Cinema, cujo vencedor será anunciado em 28 de novembro.

Em entrevista exclusiva para o Jornal do Brasil, os realizadores falaram sobre o filme, a importância de debater o tema e o significado da seleção oficial para a mostra de São Paulo.

JORNAL DO BRASIL: O que representa para o filme e para vocês a première mundial de “Transversais” na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo?

DEBERTON: Estar no maior festival de Cinema do Brasil é uma grande vitrine, então não poderíamos estar mais felizes. “Transversais”, versão longa-metragem de projeto censurado pelo presidente Jair Bolsanaro, chegando desta forma, num festival importantíssimo, mostra que as histórias contadas no documentário, cheias de afeto e superação, não serão silenciadas. E o público verá por seus próprios olhos as histórias que o presidente há pouco mais de dois anos apontou como “sem cabimento”. Nascemos e já estamos selecionados, até o momento, em quatro importantes festivais.


A exibição na mostra é mais uma importante vitrine para o debate e a discussão do tema. Vocês acham que isso pode contribuir para mudar esse quadro adverso?

MARANHÃO: Sinceramente, eu gostaria muito que “Transversais” pudesse contribuir para mudar esse cenário tão pavoroso. Penso que é justamente nesse Brasil preconceituoso e extremista que este filme se faz necessário. Porque este é um documentário que celebra a existência e a resistência. É um filme que defende que a convivência com as diferenças é possível. Ou seja, o oposto do que temos hoje no País. Vivemos tempos dificílimos, em que odiar o diferente virou palavra de ordem. Em que o que não me espelha torna-se meu inimigo. É preciso virar essa chave, com urgência. É preciso enxergar o outro e enxergar humanidade no outro, naquele que não comunga dos meus pensamentos e crenças, e a partir disso abrir canais de diálogos civilizados e respeitosos.


Apesar da censura o cinema resiste, e ultimamente temos tido mais filmes com os temas da diversidade: “Hoje eu Quero Voltar Sozinho”, “Inabitável”, “Madalena”, “Transversais” e outros. Os festivais também estão selecionando mais e os filmes têm sido também mais premiados. Quais fatores podem estar contribuindo para isso?

MARANHÃO: Entendo que hoje haja uma necessidade autêntica de ampliação de horizontes. Ninguém em sã consciência acredita que o mundo se limita à sua bolha. Sabemos bem as consequências dos que agem assim. Mais que nunca é necessário – e imperativo – dilatar o olhar, estender a percepção e partir em busca da compreensão do outro. Por isso, esse movimento em busca da diversidade de olhares e entendimento do mundo contemporâneo é cada vez mais urgente e necessário.

“Transversais” foi filmado em fevereiro de 2021, enquanto a 2ª onda da covid-19 avançava no país. Como foi o desafio de realizar e concluir o filme?

MARANHÃO: “Transversais” foi filmado nas quatro semanas de fevereiro deste ano. Foi uma loucura porque na medida em que o tempo passava, a segunda onda da pandemia avançava. Quando estávamos na pré-produção e até mesmo no começo das filmagens, vivia-se a impressão no país que o pior já havia passado e que estávamos próximos de uma saída. Ainda assim, obviamente, toda a equipe fazia testes regulares, usava máscaras, álcool em gel, no set mantinha distanciamento, enfim seguíamos todos os protocolos sanitários. Mas a partir da segunda semana de filmagens, os casos de covid começaram a aumentar no estado (CE) e, consequentemente, as restrições de deslocamento passaram a se intensificar. O toque de recolher decretado pelo governador passou a vigorar cada vez mais cedo, o que nos obrigou a antecipar planos de filmagens, a ter que terminar o dia antes do programado. Além disso, tivemos que refazer o roteiro, derrubar sequências, cancelar entrevistas com pessoas com comorbidades, para não lhes expor à possibilidade de contágio. Foram dias muito tensos e intensos. Sim, um desafio enorme. A sensação é que estávamos correndo contra o relógio o tempo todo. Mas deu certo! Para você ter uma ideia, na semana seguinte ao término das filmagens, o governador decretou isolamento social rígido, com confinamento domiciliar e suspensão das atividades comerciais.

O formato híbrido tem um lado positivo de mais pessoas terem acesso aos filmes. Com o fim da pandemia, acham que pode haver uma tendência de continuidade do formato?

DEBERTON: Acredito que, passada a pandemia, o formato híbrido poderá ser utilizado pelos festivais e mostras, como opção, pois, de fato, democratiza. Porém, quero pensar (sonhar) o futuro pós-pandêmico com salas de exibições cheias de público, caloroso como costuma ser apreciando nossos filmes. Como é sabido, estar em uma sala de cinema e consumir filmes de forma coletiva é uma experiência única por natureza.



Érikah é professora
Caio José é paramédico


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