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CadernoB - Cinema

Maratona cinematográfica em Paris promove a produção audiovisual francesa

Jornal do Brasil RODRIGO FONSECA, cadernob@jb.com.br

Pelos cálculos do governo da França, de janeiro a dezembro de 2019, o cinema feito em Paris, Marselha, Lyon e arredores contabilizou 40,5 milhões de ingressos vendidos pelo mundo, com uma arrecadação no exterior estimada em €244,4 milhões, tendo ainda emplacado 199 títulos na seleção dos dez maiores festivais do mundo (como Cannes, Veneza e Berlim) e conquistado três indicações ao Oscar. O curta animado “Mémorable”, de Bruno Collet; o desenho de 1h21 “Perdi meu corpo”, de Jérémy Clapin; e o longa “Os Miseráveis”, Ladj Ly, estão no páreo pela estatueta de Hollywood. Todos esses números, cifras de bilheteria e premiações estão sendo revisados, em solo parisiense, a partir de quinta-feira, no 22º Rendez-vous Avec Le Cinéma Français, um fórum promocional idealizado para atrair os holofotes internacionais para a recente (e a inédita) safra da França no mercado audiovisual. Toda a vitalidade e a diversidade de gêneros dos franceses em circuito estão sendo celebradas de ontem (16) a 20 de janeiro em Paris. Estima-se a presença de cerca de 100 artistas, entre atrizes de fama mundial, galãs queridos por plateias de múltiplas línguas e cineastas de veia autoral. Entre os convidados está a artesã da representação da sororidade Céline Sciamma, com seu laureado drama “Retrato de uma jovem em chamas”, já em circuito nacional; o mestre das narrativas sociológicas Robert Guédiguian, de volta às telas com o inédito “Gloria Mundi”; e a sensação dos anos 1990 Julie Delpy, que acaba de dirigir o drama “My Zoe”. Esse trio passará pelo painel de tendências estéticas concentrado no Hotel Le Collectionneur, na Rue de Courcelles. Lá é a sede da 22ª edição do Rendez-vous, realizado anualmente pela Unifrance. Esse é o órgão do governo da França responsável pela manutenção e promoção da indústria audiovisual. A cada ano, a Unifrance promove um encontro reunindo cerca de 400 distribuidores de todo o planeta (com direito à Imovision, empresa radicada em São Paulo) para divulgar prováveis sucessos de público e experimentos narrativos com fôlego para desafiar as convenções cinematográfica.

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Jeanne Balilbar dirige Merveilles à Montfermeil, um dos destaques do Rendez-vous (Foto: Reprodução)

“Diferentes frentes foram contempladas com a atenção popular e o país se destacou de maneira singular na briga pelo Oscar, em categorias variadas”, disse o crítico Serge Toubiana, diretor da Unifrance, na abertura do evento, no Salão dos Ministérios.

Daqui até domingo, emissários de 81 filmes vão passar pelas ruas parisienses, batendo ponto no Le Collectionneur, para um papo com cerca de 450 distribuidores e 120 jornalistas de 49 países, revelando as tendências que hão de mobilizar espectadores no planisfério cinéfilo. Em paralelo às entrevistas e rodadas de negócios, o Rendez-vous acolhe a mostra de filmes "My French Film Festival", que exibe uma série de curtas e longas via web, fomentando uma votação de júri popular. A edição deste ano tem ainda um júri oficial, presidido pelo diretor americano Ira Sachs (“O Amor É Estranho”), para promover produções selecionadas, entre elas: “Perdrix”, de Erwan Le Duc, e a animação “Les Hirondelles de Cabul”, de Zabou Breitman, Eléa Gobbé-Mévellec.

As principais atrações do Rendez-vous:

La Bonne Épouse, de Martin Provost: Filme de abertura do evento, apoiado no carisma de Juliette Binoche, aqui em parceria com o realizador de de “O Reencontro” (2017). A trama ataca o sexismo dos anos 1960, a partir das angústias de uma viúva que reencontra um amor do passado num momento em que entra em crise financeira, em meio às turbulências políticas de 1968;

Merveilles à Montfermeil, de Jeanne Balibar: Cantora cult e atriz bissexta, Jeanne ataca de cineasta, apoiada em um elenco monumental, para narrar a confusão que se instaura numa zona de periferia com a chegada de uma nova prefeita, vivida por Emmanuelle Béart. Mathieu Amalric, Bulle Ogier e Ramzy Bedia integram o elenco;

Mama Weed (“La Daronne”), de Jean-Paul Salomé: Nesta adaptação em tom de thriller da literatura de Hannelore Cayre, Isabelle Huppert vive uma tradutora que ajuda a polícia em uma série de investigações acerca do tráfico de drogas. Sua rotina descamba para o outro lado da Lei quando ela percebe que pode lucrar mais ajudando criminosos;

O Último Amor de Casanova, de Benoît Jacquot: Já em cartaz em telas brasileiras, o novo longa do diretor de “Adeus, minha rainha” (2012) põe Vincent Lindon (o Antonio Fagundes da França) para viver um mito do sexo no Velho Mundo: o italiano Giacomo Girolamo Casanova (1725-1798). A paixão por uma jovem cortesã vai desestabilizar o famoso sedutor;

Próxima, de Alice Winocour: Laureado em setembro com o Prêmio Especial do Júri do Festival de San Sebastián, na Espanha, o novo filme da diretora de “Augustine” (2012) repagina a imagem de Eva Green (“Os Sonhadores”), apostando em seu amadurecimento. A atriz vive um astronauta que, escalada para uma missão no espaço, precisa driblar questões da maternidade, sem deixar sua filha desamparada. Matt Dillon é um dos destaques do elenco desta requintada aventura existencial, com um pé nas estrelas e outro no chão por onde uma jovem mãe precisa avaliar seus sonhos profissionais;

Hors Normes, de Eric Toledano e Olivier Nakache: Um dos maiores sucessos de bilheteria no cinema de ambições adultas feito na França em 2019, tendo os realizadores de “Intocáveis” (fenômeno de 2011, visto por 20 milhões de pagantes) no timão. Reda Kateb e Vincent Cassel são dois educadores habituados a ajudar adolescentes autistas a se socializarem. Mas a luta deles esbarra em burocracias de seus governantes;

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Vincent Cassel estrela Hors Norme, filme da dupla de diretores Intocáveis sobre educadores especializados na inclusão de jovens autistas (Foto: Reprodução)

Adults in The Room, de Costa-Gavras: A partir do do livro homônimo de Yanis Varoufakis, o ex-ministro das Finanças da Grécia, o realizador de “Z” (1969), mestre dos thrillers políticos, abre uma reflexão sobre a falência de sua nação. Cabe ao ator Christos Loulis viver o próprio Varoufakis nesta trama que funde realismo e fábula (com direito a um corifeu), concentrando-se em tramitações políticas e judiciais de 2015 para travar a bancarrota das finanças gregas. Valeria Golino e Ulrich Tukur completam o elenco das produção, que se concentra em tramitações políticas e judiciais de 2015 para travar a bancarrota das finanças gregas.