Filme português, 'Patrick' incendeia debate sobre pedofilia e afirmação de identidade no Festival de San Sebastian

Centrado no empenho de um jovem português para entender quem de fato é após ter passado anos na França, sob a guarda de um pedófilo, “Patrick”, do lisboeta Gonçalo Waddington, tem, há três dias, inflamado debates morais no Festival de San Sebastián, cuja 67ª edição termina neste sábado, com a projeção de “Coringa” e a entrega de prêmios. Tudo indica que esta produção com CEP em Lisboa, na disputa pela Concha de Ouro de 2019, pode estar entre os filmes a serem laureados pelo júri presidido pelo diretor irlandês Neil Jordan (de “Traídos pelo desejo”), afinal, nada criou mais alarde. A polêmica vem de o fato de Gonçalo, um realizador com carreira paralela no teatro, ter apostado mais nos conflitos afetivos de seu protagonista – um rapaz batizado com o nome Mario, ao nascer, em Portugal, mas renomeado de Patrick, ao ser raptado por um homem francês hoje ancião – do que na discussão sobre o crime da pedofilia. Não é que a discussão e uma condenação não esteja na dramaturgia do longa-metragem. Mas a preocupação de seu diretor é ir além do componente criminal do caso, a fim de investigar sequelas existenciais. Além dele, destacam-se na seleção competitiva oficial do evento espanhol o thriller com tintas de horror “The Other Lamb”, da polonesa Malgorzata Szumowska, e o drama brasileiro “Pacificado”, com Débora Nascimento, Léa Garcia e José Loreto.

Macaque in the trees
Cena do filme "Patrick", do lisboeta Gonçalo Waddington (Foto: Divulgação)

Na entrevista a seguir, Gonçalo explica ao JB seu olhar estético.

JB: Qual é a dimensão da palavra nesta narrativa tão imagética, onde o protagonista, Patrick, vivido por Hugo Fernandes, liga várias vezes para o homem que o sequestrou quando menino?

Gonçalo Waddington: Há um motivo para a palavra parecer acessória no filme. Há um motivo que parece mais claro quando a mãe está a falar com seu filho na cozinha. Ela se sente muito observada: o menino entrou e ficou parado observando a mãe, que não consegue olhar para ele. Então há uma triangulação. Ele olha para ela e essa mãe utiliza o espaço para fazer mil coisas: arruma o local, fala da tia, da mãe. Esse aparente vazio da palavra, também contesta o que não é dito: ela não foi procura-lo, mas ele também não a procurou. Para quem leu Wittgenstein, que a gente tenta perceber o que é uma palavra. Porque, segundo a filosofia dele, eu posso dizer que há um elefante nesta sala e é possível dizer que há um elefante nessa sala. Qual é o significado que eu atribuo a cada palavra. O meu primeiro curta se chamava “Nenhum Nome”, e era sobre alguém que não sabia que nome tinha. O segundo se chamava “Imaculada” que era uma pessoa que perdeu a família toda, os filhos e a mulher, e acha que tem um ser estranho dentro de si, uma vontade de tampar uma lacuna e está à procura de sentido. Em “Patrick”, o desafio é saber o que aquele nome, portanto, aquela palavra, significa para ele.

JB: Como procedimento de linguagem, seu filme impressionou San Sebastián pela beleza de suas imagens e pelo cuidado de mostrar o mundo que cerca o jovem Patrick... ou Mario. Por que essa opção de mostrar o território, em meio a uma história que se passa na alma alquebrada de um indivíduo? O quanto aquele universo exterior pode acrescentar?

Gonçalo Waddington: Isso tem muito a ver com a questão da triangulação, ou seja, eu preciso ver não no ponto de vista dos olhos dele, mas eu preciso reagir aos olhos dele para perceber como ela está a reagir ao que está a observar. Eu acho que o pouco que é mostrado, por exemplo, do bosque que para ele também é opressivo... pelo barulho, pela estranheza, pelas memórias que vão trabalhar nos olhos dele. Eu acho que há alguma beleza estética naquela casa onde ele revê a mãe que mal conheceu, naquele bosque, aquele rio. Mas se eu mostro mais aquilo, nós corremos o risco de sair do foco principal, que é como aquilo trabalha nele. A questão é nós temos que perceber naqueles silêncios, naqueles olhares quem Patrick é. E esses silêncios e olhares se passam dentro de um espaço físico

JB: Como foi dirigir este teu ator estreante nesta narrativa tão tensa e farpada?

Gonçalo Waddington: Ele fez uns filmes quando era mais novo, teve uma participação em um filme aos 14, um filme importante e depois ele é um artista plástico. Já estávamos a trabalhar e ele é superintuitivo na abordagem daquele personagem. Eu nunca tive que mexer no potencial das suas intenções, dos seus olhares. Ele faz tudo com o mínimo, o mínimo bom, com o olhar certo e aqueles olhos são muito interessantes, eles mostram muito. Na primeira conversa que eu tive com ele, ele estava um pouco atrapalhado e ele era muito esquivo e isso era ótimo para o Patrick. Eu fiz uma espécie de interrogatório, porque a cena de maior comoção era nos enfrentamentos entre os personagens. Chamava atenção o quanto os olhos dele eram super esquivos.

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O ator Hugo Fernandes no papel de "Patrick", do lisboeta Gonçalo Waddington (Foto: Divulgação)

Mais do festival

Dos filmes das mostras paralelas de San Sebastián, vale destacar o enorme sucesso popular de “Les Misérables”, de Ladj Ly (França). De descendência maliana, este realizador francês com carreira de ator e de documentarista mergulha na ficção a partir de um paralelo com a literatura de Victor Hugo, falando sobre um trio de policiais que se envolvem num conflito com a população de um subúrbio de Paris, com população majoritariamente negra. É a melhor montagem de todos os candidatos à Palma já exibidos: nervosa, mas aberta à reflexão das contradições sociais. Ganhou o Prêmio do Júri em Cannes, empatado com “Bacurau”, um dos maiores sucessos do cinema brasileiro na atualidade.

Também brilha por San Sebastián o ótimo “Zombi Child”, de Bertrand Bonello. Espécie de “Carrie, a estranha” misturado com .docs do Arte sobre macumba, o novo filme do realizador de “Nocturama” (2017) trança dois tempos (os anos 1960 e a atualidade) e dois espaços (o Haiti e a classe média francesa) a partir de um grupo de alunas adolescentes que montam uma sororidade de estudos literárias e têm contato com os mistérios ocultos de um ritual de zumbificação usado em trabalhos servis na América Central. Uma das estudantes pede a uma imigrante haitiana que exorcize seus males de amor por um namoradinho, o que deflagra um processo de assombro. A filmagem dos rituais de sincretismo afro ultrapassam os males da alteridade.



Cena do filme "Patrick", do lisboeta Gonçalo Waddington
O ator Hugo Fernandes no papel de "Patrick", do lisboeta Gonçalo Waddington