Festa do cinema italiano mantém sua edição 'em casa'

Festival gratuito acontece on-line de 17 a 27 de junho

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Em 2021, o "8 ½ Festa do Cinema Italiano" encara mais uma vez o desafio de oferecer uma edição totalmente on-line com qualidade à altura dos filmes da programação. Uma seleção dos melhores filmes italianos dos últimos anos, a maioria deles ainda inédita no Brasil.

Os filmes poderão ser acessados diretamente no site do festival e por meio da plataforma Looke.

Em 2020, o festival realizou sua primeira edição totalmente on-line, com 20 filmes em sua programação gratuita, atingindo 154.380 espectadores, com 90 mil usuários diferentes em todas as regiões do Brasil.

Em 2021 o "8 ½ Festa do Cinema Italiano" segue garantindo a première de importantes produções, apresentando novas tendências do cinema italiano e filmes que passaram pelos mais importantes festivais internacionais, "As Irmãs Macaluso" (La Sorelle Macaluso), de Emma Dante, que fez sua estreia mundial no Festival de Veneza 2020, terceiro longa da aclamada dramaturga, é o filme de abertura desta edição.

Emma Dante, uma das mais prestigiadas da Itália, vai ministrar uma masterclass on-line aberta ao público. "As Irmãs Macaluso", seu terceiro longa, conta a história de cinco irmãs e como o tempo atravessa as relações e a vida destas mulheres. Um mergulho poético e contundente no universo feminino, marcado pelo tempo, pelas marcas que o tempo e a realidade do subúrbio palermitano onde vivem deixam na vida de cada uma delas. Dividido em três tempos, é um mergulho na memória. "É sobre as coisas que duram. Sobre as pessoas que permanecem mesmo depois da morte. É um filme sobre a velhice e sobre a incrível linha de chegada da vida", afirma a diretora.

Os filmes

De Veneza para Berlim, dois títulos chegam ao Brasil trazendo prêmios da Berlinale 2020. Urso de Prata de Melhor Ator para Elio Germano, "A Vida Solitária de Antonio Ligabue" (Volevo Nascondermi), de Giorgio Diritti, conta a história real de um dos mais surpreendentes artistas italianos do século 20. Vivido por Elio Germano, que está quase irreconhecível em sua caracterização, Ligabue vive por anos em uma cabana à beira do rio sem nunca ceder à solidão, ao frio e à fome. Em uma Itália dominada pelo fascismo, é por meio da pintura que ele encontra um caminho para construir sua identidade, a possibilidade real de ser reconhecido e de amar o mundo. "Foi uma experiência maravilhosa. Além de seu trabalho, sua técnica, a liberdade, a vontade de ser quem se é, me emociona muito em sua história. Uma história de amor à diversidade e à coerência de seguir suas convicções", declarou Germano.

Já o nada ortodoxo "Fábulas Sombrias" (Favolacce), dos irmãos Fabio e Damiano D'Innocenzo, levou o Urso de Prata de Melhor Roteiro no Festival de Berlim 2020 e é um sopro de energia no cinema contemporâneo italiano. Inventivo, com linguagem muito particular, que dá ao filme um ritmo e uma atmosfera diferente de tudo, o longa retrata o cotidiano e o desconforto de várias famílias que vivem em um subúrbio de Roma. No ar quente do verão, há algo que está prestes a explodir. Este cotidiano exasperante é visto, sobretudo, pelo olhar das crianças. Um narrador incerto nos guia, de modo doce e sarcástico, por este conto de fadas sombrio e belo.

"Há tudo, menos a felicidade. E na falta da felicidade, se buscam os fetiches. Cada um se apega a seus próprios prêmios de consolação. Faz-se de conta que tudo vai bem, mas, de alguma forma, vemos como é fácil esconder seus segredos a sete chaves mesmo estando em família. E isso se mostrou muito atual, sobretudo em tempos em que estamos em pandemia e todos vivendo muito próximos", comentou Fabio D'Innocenzo ao jornal "Corriere dello Sport".

Outro destaque entre as estreias é o corajoso "Rômulo & Remo: O Primeiro Rei" (Il Primo Re), de Matteo Rovere, que levou o prêmio David di Donatello de Melhor Fotografia 2020 para Daniele Ciprì. Protagonizado por Alessandro Borghi (Remo) e Alessio Lapice (Rômulo), o longa se passa em 753 A.C, o ano da fundação de Roma, e conta justamente a lenda de Rômulo e Remo, os fundadores da cidade eterna.

Todo falado em proto-latim (que precedeu o latim arcaico), o filme é uma das produções italianas mais ousadas tanto criativamente quanto em questão de produção, cujas filmagens, ocorridas na região do Lazio, justamente onde a história original se passa, exigiram um esforço físico e mental do elenco. Para a construção dos diálogos em proto-latim, Rovere e a roteirista contaram com a consultoria de vários estudiosos e linguistas. Já para criar os cenários com as construções de época, também foram realizados vários estudos e a produção teve a consultoria de historiadores. O elenco também passou meses em treinamento intensivo para vivenciar não só as lutas, mas também a corporalidade dos personagens.

Matteo Rovere conta que quis filmar em proto-latim justamente para dar ao público a sensação de viver a experiência real de uma história que ocorreu séculos antes do surgimento do Império Romano. “Eu queria provar também que o cinema italiano é capaz de produzir excelentes resultados comparados com os standards internacionais em questão de dublês, próteses, efeitos especiais, lutas e figurinos. Tudo foi criado na Itália", comentou o diretor à Screen Daily.

Destaque também para "Volare" (Tutto il Mio Folle Amore), de Gabriele Salvatores (Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 1991 com "Mediterraneo"), que fez sua première mundial no Festival de Veneza 2021. Estrelado pelo jovem Giulio Pranno e pelos experientes Claudio Santamaria e Valeria Golino, o longa conta a história de um pai ausente que um dia decide ir em busca do filho adolescente Vincent (Pranno), com Transtorno do Espectro do Autismo. Emocionante, Volare é um road movie pelas belas paisagens da Eslovênia, uma viagem de autodescoberta e a descoberta do amor entre pai e filho.

Na programação não poderiam faltar as comédias que, além de sucessos de bilheteria, também lançam um olhar inteligente sobre a vida na Itália contemporânea. Este ano a programação conta com a estreia de "Troca Tudo!" (Cambio Tutto!), do diretor Guido Chiesa, e o divertido "Bangla", de Phaim Bhuiyan, longa premiado como a melhor comédia italiana de 2019 , que narra as aventuras amorosas de um italiano filho de imigrantes de Bangladesh.

Retrospectiva Alice Rohrwacher

Além da programação contemporânea, que conta com pré-estreias exclusivas em território brasileiro, o evento este ano traz uma sessão especial focada em Alice Rohrwacher, uma das realizadoras italianas mais prestigiadas da atualidade. Formada em Literatura e Filosofia pela Universidade de Turim, ela é diretora de obras como Lazzaro Felice, vencedor do Melhor Roteiro do Festival de Cannes 2018, e tem uma obra que retrata a alma humana em histórias nada convencionais.

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Alice Rohrwacher (Foto: Fabio Lovino/divulgação)

Seu longa de estreia, "Corpo Celeste" (2011), marcou também sua estreia nos sets, pois ela e a irmã, a atriz Alba Rohrwacher, cresceram no campo e sem acesso ao mundo do cinema. A produção estreou na Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes, e recebeu o conceituado prêmio Nastro D’Argento.

Em 2014, voltou a Cannes com "As Maravilhas", dessa vez na competição oficial. O longa conta a história de Gelsomina (a atriz Maria Alexandra Lungu que, na trama, tem o mesmo nome da heroína de "A Estrada", de Federico Fellini), uma jovem que também vive no campo, mas sonha em ser famosa. A produção conta com Monica Bellucci e Alba Rohrwacher no elenco e levou o Grande Prêmio do Júri em Cannes, o que garantiu o passaporte de Alice para o hall dos diretores mais respeitados do circuito internacional.

Em 2019, levou ao Festival de Veneza o curta "Omelia Contadina", realizado em parceria com o artista francês JR. Uma proposta experimental de protesto visual ao realizar o velório simbólico da agricultura camponesa.

Nesta retrospectiva, o público poderá conferir a maioria da produção de Alice Rohrwacher, entre filmes inéditos, curtas e documentários. Para todos os espectadores do evento, será disponibilizada uma masterclass com a diretora.

A agenda e a programação completa do FCI 2021 disponível no site oficial.

 


Cena do premiado 'Rômulo & Remo: O Primeiro Rei', de Matteo Rovere, com Alessandro Borghi (Remo) e Alessio Lapice (Rômulo), que estreará no festival
Alice Rohrwacher