Joel Pizzini fala do seu novo filme, ‘Zimba’, destaque do festival É Tudo Verdade

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Foto: Alexandre Horta
Credit...Foto: Alexandre Horta

“Zimba”, dirigido por Joel Pizzini – cineasta, pesquisador e autor de ensaios documentais premiados internacionalmente –, integra a mostra competitiva do Festival É Tudo Verdade, que acontece de 8 a 18 de abril em formato totalmente on-line.
O filme aborda a trajetória artística e existencial do ator e diretor de teatro Zbigniew Ziembinski, que ao denunciar o nazismo com a peça “Genebra”, de Bernard Shaw, é obrigado a fugir da Polônia, vem para o Brasil e revoluciona as artes cênicas do país.

Narrado a partir de vasto material de arquivo e com participações das atrizes Nathalia Timberg, Camila Amado e Nicette Bruno, “Zimba” recupera performances de Ziembinski no cinema, novelas e teleteatros, através de um diálogo cine-teatral.

Com o título do carinhoso apelido que Ziembinski recebeu aqui, “Zimba” celebra a arte e o ideário do primeiro encenador “brasileiro”, criador do teatro moderno e inovador da televisão latino-americana.

Pizzini - a exemplo de outros personagens que retratou – mantém sua recorrente assinatura de privilegiar o ser humano por trás do mito, sondando suas motivações e ressonâncias, buscando sempre um viés poético e dando generoso espaço para que a competente equipe do filme cumpra plenamente sua parte no todo.

Em entrevista exclusiva para o JORNAL DO BRASIL, o cineasta falou de sua motivação para fazer o filme, de sua participação no É Tudo Verdade e de sua expectativa de que “Zimba” não tenha apenas um primeiro impacto, mas evoque uma energia criativa e permaneça na mente dos espectadores com muitos pontos de reflexão.

Macaque in the trees
Ziembinski (Foto: CPDOC JB)

Qual a principal motivação para documentar a trajetória do Ziembnski?

Antes de tudo, há uma motivação atávica pelo fato de meus trisavós paternos terem vindo de Gdansk para o Brasil e eu ter me nutrido do cinema polonês nos tempos de cineclube na universidade. Skolimovski, Wajda, Zanussi, Polanski, além de poetas como Leminski, que conheci em Curitiba. Depois tem o imaginário do Ziembinski que veio através da novela Rebu e dos Casos Especiais que dirigiu e tinham decupagem de cinema. Como dizia a Nicette Bruno, “aquele homem mesmo grande, expressivo, parecia uma pluma em cena”. O convite da produtora Ursula Groska e da Vera Hadda, acionou um desejo inconsciente de especular essa história que sempre me habitou. Através de Zimba toda uma tradição se aflora. Como primeiro iluminador de nosso teatro, Ziembinskki é a própria metáfora da vitória da arte sobre a barbárie e, portanto, uma inspiração neste filme que se repete e vivemos hoje, tragicamente.

Qual a sensação de estar na programação do É Tudo Verdade?, um festival conhecido por selecionar o melhor do gênero.

É um privilégio participar de uma seleção tão representativa em um festival referencial no mundo do documentário. Trata-se de um fórum internacional em que a pesquisa de linguagem e os limites do “gênero” ganham o primeiro plano.

Seus filmes conseguem sempre uma identificação imediata com os espectadores. É difícil conseguir isso?

O Glauber dizia que uma coisa é conquistar o público, a outra é explorar o público. Fico alegre em surpreender, provocar e proporcionar prazer estético para os espectadores, incitando-os à reflexão. Minha ambição e consolo é fazer filmes pra ficar em cartaz a vida inteira. Há filmes que optam por impactar uma vez só... São escolhas e escolhas.

E qual sua expectativa para o Zimba?

Acredito que a memória do Zimba vai evocar uma energia criativa que envolve toda uma geração que dedicou a vida à arte e vice-versa. Não é à toa que o encenador polonês Jerzy Grotowisk quando veio ao Rio, fez questão de visitá-lo. Ziembinski inovou por dentro das vísceras do sistema, formando diretores, atores e autores como Antunes Filho, Paulo José, Domingos de Oliveira, Walmor Chagas, Nicette Bruno, entre outros. Desconfio que muitos irão gostar ou se interessar pelo filme, mas adoraria revelar essa figura imensa também pra quem nunca ouviu falar dele.

 



Joel Pizzini
Ziembinski