Bolognesi fala do seu filme selecionado para Berlim

Foto: Laís Bodanzky
Credit...Foto: Laís Bodanzky

“A Última Floresta”, de Luiz Bolognesi, é o único título brasileiro presente na Panorama, paralela mais prestigiada do Festival de Berlim, que realizará sua 71ª edição em duas fases: de 1 a 5 de março, no formato virtual, e de 9 a 20 de junho, com exibições abertas ao público em salas e ao ar livre na cidade.

O diretor paulista retorna ao festival onde, em 2018, “Ex-Pajé”, exibido na mesma mostra, ganhou Menção Especial do Júri de Melhor Documentário.

Em “A Última Floresta” – que é produzido pela Gullane e pela Buriti Filmes –, o diretor volta a abordar o descaso com indígenas. O filme segue o povo Yanomami vivendo, há mais de mil anos, em um território ao norte do Brasil e ao sul da Venezuela, atualmente sob a proteção do xamã e líder político Davi Kopenawa, que busca preservar as tradições da comunidade.

Bolognesi e Kopenawa assinam o ótimo roteiro do filme, que retrata e faz uma forte denúncia desse quadro adverso, agravado agora com a pandemia.

Em entrevista exclusiva para o JORNAL DO BRASIL, Bolognesi falou do filme, os resultados que espera com sua realização e o significado da seleção em Berlim.

JB: O que representa para você essa volta ao Festival de Berlim com “A Última Floresta”, depois do sucesso de “Ex-Pajé” em 2018?

BOLOGNESI: Para nós que fizemos o filme, voltar ao Festival é uma honra, uma felicidade enorme e, sobretudo uma estratégia fundamental para o lançamento de “A Última Floresta”. Berlim anunciou e, já no dia seguinte, festivais de diversos países entraram em contato interessados no filme. Por outro lado, a seleção dá visibilidade ao filme enquanto obra estética, brasileira e filmada em uma área isolada da Amazônia e com personagens Yanomamis. O reconhecimento de Berlim para essa narrativa é também muito importante para dar voz ao Davi, para a luta dele por esse povo e para a preservação do seu território. Então é realmente o que de melhor poderia acontecer para possibilitar que seja visto por mais pessoas, que tenha muito espaço na mídia e para que a narrativa dos Yanomami – uma vez que o roteirista é um xamã Yanomami – possa ser ouvida.

A possibilidade que o tema do documentário seja debatido em diversos países pode ajudar a combater esse quadro adverso da causa indígena?

Sim, eu sou muito otimista com a potência do cinema como arma de conscientização, de mobilização e de resistência. Eu tenho visto isso com outros filmes que tive o privilégio de trabalhar, como “Bicho de Sete Cabeças”, de Laís Bodanzky, que fui roteirista e produtor e que contribuiu para o Movimento Antimanicomial (luta pela transformação do tratamento de pessoas com problemas mentais) no país. Então eu acho que o filme tem o poder de trazer a luta dos Yanomami para a mídia, para o debate político e para a própria opinião pública, pressionando a justiça para que se cumpra a lei e impeça a invasão de 15 mil garimpeiros em uma área legalmente constituída como terra indígena. Além disso, pode dar mais voz aos Yanomami, que têm muito a ensinar a nós brancos, sobre sustentabilidade, harmonia, fertilidade, conhecimento holístico, preservação de biomas e respeito. Enfim, há uma sabedoria entre eles, e eu espero que o filme abra a cabeça de muita gente para ler o livro do Davi ("A Queda do Céu: Palavras de um Xamã Yanomami"), para saber mais sobre poesia, música, conhecimentos científicos, filosóficos, políticos e xamânicos dos povos nativos do Brasil. O filme é mais uma flecha que vai contribuir e ser disparada desse arco da resistência indígena.

A Panorama tem a característica de selecionar filmes de cunho social e com um viés contemporâneo. Qual receptividade espera desse público?

É difícil avaliar, mas estou otimista porque eu fiz algumas poucas sessões e a reação foi muito positiva. “A Última Floresta” tem uma densidade poética e de contemplação. Não é uma obra fácil, de entretenimento simples, é um filme que incomoda e que tem o tempo indígena. É um documentário pra quem está interessado em uma viagem pela visão indígena, por um universo em que sonho e realidade estão no mesmo plano. Para eles, o que se passa nos sonhos à noite é tão real quanto o que eles vivem de dia.
Além disso, tem uma série de informações muito sutis, mas que são saborosas. Então eu acho que, para pessoas com mais abertura, mais escuta para novas histórias e para conhecer o outro, o filme vai responder bem. Ao contrário, para quem está buscando apenas um entretenimento fácil, algo para se divertir, ou para obter uma informação objetiva, clara, imediata, o filme pode não atender. Mas eu fiquei muito satisfeito com a reação que vi nas poucas sessões que fiz, sobretudo a mais importante de todas, que foi para o Davi e para o Dário Kopenawa, que é o filho dele. Eu estava morrendo de medo, foi a sessão mais difícil pra mim, e senti que eles gostaram muito. O Davi aprovou o filme, reagiu com emoção, eu vi durante a sessão ele chorar e rir também, então, por todos esses motivos, estou otimista.”.

Qual sua expectativa para esta diferenciada e atípica 71ª edição? Com o fim da pandemia, você acha que pode haver uma tendência de continuidade desse formato hibrido?

O formato híbrido ninguém quer, mas é o que temos para o momento. Com essa segunda onda da pandemia e o Brasil talvez emendando uma segunda e terceira ondas, a gente realmente não tem perspectiva num curtíssimo prazo de fazer sessões para o público. Então esse formato de ter uma janela digital e a perspectiva de em junho fazer um festival aberto, com cinema ao ar livre, eu torço para que aconteça. E até lá espero estar vacinado, que o Davi esteja vacinado e possamos ir a Berlim debater o filme com jornalistas, críticos, antropólogos, ativistas e com o grande público, como foi com o “Ex-Pajé”, que tivemos encontros e debates maravilhosos. Em junho, se o Chabiri (Espírito da Montanha) permitir e quiser, e eu acho que ele quer, espero que oxalá isso ocorra”.

Macaque in the trees
Davi Kopenawa Yanomami (Foto: Foto de Pedro Márquez)



Luiz Bolognesi
Davi Kopenawa Yanomami