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Marrakech celebra os 40 anos de 'Mad Max'

Jornal do Brasil RODRIGO FONSECA*, cadernob@jb.com.br

Ocupado com a pré-produção de um épico de tons românticos com Idris Elba e Tilda Swinton para rodar em 2020, após cinco anos sem filmar, George Miller não teve tempo em sua agenda para celebrar os 40 anos de seu mais icônico trabalho, a franquia "Mad Max", com Mel Gibson, depois substituído por Tom Hardy. Mas o 18º Festival de Marrakech resolveu encampar a celebração das quatro décadas da saga motorizada do Guerreiro das Estradas, em meio a uma homenagem ao cinema australiano. Veio da Austrália diretamente para o Marrocos um dos filmes de estreante mais elogiado de 2019: "Dente de Leite" ("Babyteeth"), exibido no evento africano em concurso pela Estrela de Ouro - o pernambucano Kleber Mendonça Filho, um dos diretores de "Bacurau", integra o júri. Há ainda uma delegação vinda de Sydney e de Melbourne. Mas o Louco Max entrou nesse pacote: na quinta, o primeiro longa do herói, de 1979, vai ser exibido em telona aqui, numa galã comemorativa.

"Criei Max como um espelho do hiperrealismo que minha geração recebia da Hollywood dos anos 1970, com seus filmes polítizados. Nós, com os parcos recursos financeiros da Austrália, sonhávamos em fazer um cinema de gênero, com heróis dignos da tradição hollywoodiana, mas que carregassem um ethos nosso, mais transgressor. O personagem surgiu daí e do ímpeto criativo de Gibson", disse Miller ao JB em Cannes, onde ele presidiu o júri da Palma de Ouro de 2016, dada a "Eu, Daniel Blake", de Ken Loach.

Foi lá também que o cineasta reinventou-se,em 2015, ao lançar "Mas Max - Estrada da Fúria", com Hardy e Charlize Theron (como Imperatriz Furiosa), após um hiato de 30 anos de seu vigilante fedido a diesel. "Fiquei anos com o projeto, mas não desisti da chance de explorar a carga de movimento inerente à franquia, que brinca com códigos básicos de tempo e de espaço do cinema", disse Miller.

Segunda-feira é dia de Marrakech promover uma palestra do veterano ator e colaborador de Martin Scorsese, Harvey Keitel, que, aos 80 anos, vive o mafioso Angelo Bruno em "O Irlandês", que vai ser exibido em tela grande, com seus 202 minutos. Keitel, que filmou "Rio, eu te amo" (2014) em solo carioca, vai relembrar seus papéis de maior prestígio, incluindo seu trabalho como Judas em "A Última Tentação de Cristo" (1988). Nesta terça, é dia de o festival marroquino acolher um dos mais prolíficos produtores do cinema autoral, Jeremy Thomas, que zela pela obra do artesão japonês da ação Takashi Miike ("13 Assassinos"). Ele vem falar sobre os modos de se investir dinheiro de estúdios e de pequenas produtoras de língua inglesa na Ásia. Mas promete adiantar detalhes da superprodução infantojuvenil "Pinóquio", rodada por Matteo Garrone para sair na Itália no Natal. Nela, Roberto Benigni (de "A Vida É Bela") encarna Gepeto.

Macaque in the trees
Mad Max 1979 (Foto: Reprodução)

Na próxima sexta, Marrakech confere, em sua disputa oficial por prêmios, o aclamado "A Febre", produção ambientada em solo amazônico. É o único dos 14 longas concorrentes a prêmios por aqui falado em português, com CEP brasileiro. Revelado ao mundo no Festival Locarno, na Suíça, de onde saiu com três troféus, este drama nas raias do fantástico (ou do extraordinário, como define sua diretora, a carioca Maya Da-Rin), venceu o Festival de Brasília, no sábado. Saiu de lá com o Candango de melhor filme e o de melhor realização Seu roteiro narra o cotidiano de um índio, Justino, que trabalha como vigia do cais do porto de Manaus. Vivido por Regis Myrupu, Justino sofre com um estado febril inexplicável. A doença lhe acomete em paralelo à aparição de um animal exótico na vizinhança por onde circula. No mesmo dia, 6 de dezembro, o ator e diretor Robert Redford, ganhador do Oscar por "Gente como a gente" (1980), vem ao Marrocos receber um troféu honorário pelo conjunto de sua carreira.

No sábado, a maratona cinéfila dos marroquinos chega ao fim, com a cerimônia de premiação, chefiada pela já citada Tilda Swinton, que filmará em breve com George Miller