Às cores, para a eternidade

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Pintar o túmulo da mãe foi a forma que a roteirista Denise Portes encontrou para sublimar a dor da perda em uma homenagem a ela, artista plástica, imersa no trabalhos com cores. Acabou sendo também o ponto de partida para a peça em cartaz no Reduto, em Botafogo, encenada por sua filha, Júlia Portes, com Joana Kannenberg.

No palco, elas vivem respectivamente Francini e Marta, que se tornaram amigas próximas na infância, em um cidade pequena. Também entraram juntas na adolescência, partilhando suas descobertas, mas, no entanto, se afastaram na idade adulta e só se voltam a se ver em um funeral. Era o enterro da avó de Francini, que havia se mudado para a metrópole, em busca de trabalho, de uma nova vida.

O reencontro acaba marcado por confrontos éticos e morais, expectativas e ressentimentos entre as duas antigas amigas.

Em comum, têm uma missão: pintar em múltiplas cores o túmulo da recém-falecida, da mesma forma do que foi feito com a avó de Júlia Portes. "Na nossa sociedade, a morte está relacionada ao luto, ao choro e à tristeza. Tanto na peça quanto na vida real, a ideia é romper e celebrar com alegria a passagem de uma pessoa muito querida e tudo o que ela nos deixou", compara a atriz. "Por que uma mulher tão criativa como a minha avó ficaria enterrada num lugar todo cinza?", questiona no texto de apresentação da peça.

Na vida, a diferença é o intermédio geracional. Foi Denise, mãe dela e avó da artista Carmelita, quem pintou seu túmulo, em 2016. Posteriormente, a experiência pessoal inspirou o texto teatral, escrito a oito mãos por Denise, Júlia, Joana e o diretor Lucas Lacerda.

"A ideia do texto veio com um desejo da Denise Portes, porque queria subverter um pouco a vontade de azulejar ou perpetuar a cor cinza, essa falta de cor. Já tinha a dor que a morte traz e é difícil para qualquer pessoa e resolveu pintar a sepultura, 'porque minha mãe era uma artista', como ela dizia", ressalta o diretor, ao JORNAL DO BRASIL, lembrando que a roteirista planejou, desde a pintura do jazigo, o processo criativo que culminou no espetáculo cênico.

"A Denise juntou a equipe para fazer um clipe como registro da pintura e levou essa experiência durante o processo de montagem, com a filha dela. Através dos brainstorms artísticos para construção da obra teatral, acabamos fazendo o texto e a forma com que elas se apresentam no palco", acrescenta, qualificando a narrativa como uma "história atravessada performaticamente por um diálogo entre a ficção e a realidade".

A peça também aborda relações familiares e laços sanguíneos, incluindo seus conflitos, de polarizações ideológicas a choques de temperamento, além de influências que afetam encontros, escolhas e comportamentos. "Muitos assuntos nos atravessam. Eu mesma vim do interior do Rio Grande do Sul e deixei minha família. Sempre existe um questionamento atrás do que eu vim fazer. Quando as coisas ganham ou perdem sentido", avalia, na apresentação do espetáculo Joana Kannenberg, que atua pintada em cores, assim como a colega.

Fugindo do realismo, o figurino de Nathalia Gastim e o cenário de José Dias remetem a elementos da peça e aos novos significados que se somam ao longo da trama, realçada pela iluminação de Gabriel Prieto. Composta por Natália Oliveira, a trilha sonora original representa as passagens de tempo das personagens.