Improvisação na vida

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Como convencer as empresas da importância de patrocinar projetos como esse?

Convencer? Não é preciso, elas vêm ate nós (risos). O Jazz Day cresceu muito, no último ano tivemos mais de 13 milhões de visualizações em nossos vídeos - é incrível. As pessoas querem saber cada vez mais sobre música e hoje o acesso aos conteúdos é cada vez mais amplo, bem diferente da minha juventude. Penso que a música e sua improvisação representam o que é o ser humano. É isso que fazemos o tempo todo, improvisamos em nossas vidas, em nosso trabalho. A música é um estado poderoso de criatividade e coragem. As marcas com certeza querem estar próximas a isso.

Acredita que projetos como o Dia Internacional do Jazz podem revelar e estimular jovens talentos na música?

É muito importante. Os jovens são o futuro e ferramentas como as redes sociais podem fazer com que esses jovens criem produtos globais com muita facilidade. Quem poderia imaginar que vídeos seriam espalhados pelo mundo todo tão rapidamente? E sabe o que é engraçado? Todos eles estão fazendo filmes, ou cantando, logo estão mexendo com arte, mesmo sem perceberem isso. Projetos como o Jazz Day e outros que realizamos regularmente ajudam a estimular os jovens a fazer um bom uso da tecnologia com a música. Caso contrário, eles iriam ficar escondidos atrás de uma tela, praticando bullying e deixando de aprender coisas relevantes, transformando-se em pessoas vazias. Nós provamos com o jazz que crianças antes com notas ruins e sem vontade de ir para a faculdade, após a prática de um instrumento, passaram a se interessar mais pela parte acadêmica e a buscar um futuro melhor.

Qual é a sua opinião sobre essa nova geração de talentos do jazz? Algum músico em especial tem chamado sua atenção?

Existem muitos garotos legais na cena atualmente. Eles são jovens, abusados, gosto de aprender com eles. Parte da sabedoria da vida é nunca estar fechado para aprendizados, não importa a sua idade ou o momento que está vivendo. Caras como Kamasi Whashington, Terrace Martin com quem trabalhei recentemente, Robert Glasper, Justin Brown, são todos ótimos. Jacob Collier também, é um garoto incrível, um gênio criativo. Posso falar bem sobre os jovens da Califórnia e de Nova York, que são as áreas onde eu passo mais o meu tempo, mas sei que jovens de diversas cidades e países estão surgindo para trazer novidades e criatividade ao mundo do jazz.

Como no Estados Unidos, o Brasil vem passando por um momento de transição política, com questionamentos sobre o apoio e o incentivo à cultura. Como vocês músicos enxergam isso?

Venho tendo uma experiência maravilhosa sobre isso nos últimos oito anos do Jazz Day. Você reunir pessoas ao redor do mundo, cada um com a sua cultura, para celebrar um dia, é um momento muito especial e espiritual. Eu visitei vários países celebrando e pude ver no rosto das pessoas, das crianças, o amor pela música, o brilho nos olhos. E todos juntos, participando, acreditando naquilo. Isso é uma maneira de fazer a humanidade melhor, e é possível graças não só à música, mas à arte em geral. O mundo precisa disso, não importa o que qualquer político diga. Um lugar sem cultura é um lugar sem vida.

Como você recebeu o anúncio sobre a substituição de nome do Thelonious Monk Institute para Herbie Hancock Institute ? É uma grande honra, não acha?

Acredito que seja a primeira vez que esteja falando sobre isso de maneira oficial. Eu sempre estive conectado com o instituto e isto se intensificou muito nos últimos anos, pelo meu papel na Unesco. Comecei a ver o instituto como uma oportunidade de expansão cada vez maior: poder ensinar a música, expandir a educação junto a todas nossas ações humanitárias. A diretoria sempre deixou claro que gostaria que eu continuasse na posição de presidente, independente de meu nome ser dado ao instituto e que aquilo era uma maneira de seguir dando continuidade à história do jazz. A família Monk cedeu seu nome durante trinta anos, o que foi fundamental para o sucesso deste trabalho.

Então foi uma reação tranquila?

De jeito nenhum (risos). Eu sentei e deixei eles falarem. Depois disse que tinha que conversar com a minha família e minha empresária, Melinda. Eles me protegem muito. Não disseram de cara "sim", fizeram muitas perguntas, se preocuparam comigo. Mas claro, entendemos a importância de um momento como esse e eu aceitei. Não sei se mereço tanto quanto Thelonious, mas estou honrado (gargalhadas). É uma grande responsabilidade.

E quais são os planos para o agora Herbie Hancock Institute?

Eu vou continuar a fazer o que estávamos fazendo. Claro que quero buscar cada vez mais pessoas ao redor do mundo, para que possamos ter um time maior para realizar nossas ideias. Confio muito na nossa diretoria e me sinto mais confiante para expor os projetos e as direções em que acredito para o instituto. Vamos em busca de mais recursos.

Qual é o seu conhecimento sobre a música brasileira? Você costuma tocar músicas de Milton Nascimento em alguns dos seus shows.

Sim, toquei inclusive na noite passada. Milton Nascimento, Tom Jobim e Joâo Gilberto são grandes ícones da música brasileira. Estive muito ocupado nos últimos dois anos com shows e o meu novo disco, tendo me faltado tempo para pesquisar mais sobre novos talentos da música advinda do Brasil. A música brasileira é envolvente, assim como o povo. Passei minha lua de mel aqui e tenho muito carinho pelo país.

Novo disco? Para este ano?

Estou sempre falando demais (risos). Estou há dois anos, quase três, na verdade, produzindo um trabalho novo. O que era para ser um disco se transformará em três discos. Nunca trabalhei tanto em algo como neste material, que terá participações de diversos nomes que falamos nesta entrevista. Espero que fique incrível.

Qual seu segredo para se manter tão ativo aos 78 anos?

Em primeiro lugar, meus genes são muito saudáveis. Meus pais viveram mais de 90 anos. Apesar disto, acredito que o budismo, que faz parte da minha vida há quase 47 anos, é o grande responsável. Ele me fez olhar tudo de uma maneira diferente. Quando era jovem, tinha muitas perguntas, desejos e ansiedades. A prática do budismo trouxe uma paz ao meu interior, deixou eu criar minha música, eliminou os medos e os receios que possuía. Achava que era apenas um músico, mas pude também entender que era um pai, um marido, um filho. Nós, seres humanos, somos muitas coisas e precisamos estar conectados com tudo isso. Temos muito potencial, não há barreiras, podemos ir muito longe. Mas, para isto, precisamos estar em paz com nossas vidas, nossas escolhas e nossos propósitos. Quando entendi o meu papel no mundo, tudo fez mais sentido. A capacidade de seguirmos aprendendo é o que nos mantém jovens e vivos. Eu quero seguir desta forma até o dia em que o relógio aqui dentro parar.



Herbie Hancok no estúdio de gravação no início de carreira
O músico fez parte do Segundo Grande Quinteto do genial Miles Davis, entre 1964 e 1968
O pianista e compositor com a promotora do International Jazz Day no Brasil,Teca Macedo
Herbie 9 No Piano