Metamorfoses do livro e das visões de mundo

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Bem ilustrado, o tomo é pequenino, o que pode enganar o leitor. Pois na realidade “O livro, o espaço e a natureza”, escrito pelos físicos Francisco Caruso e Roberto Moreira Xavier de Araújo e lançado pela LF Editorial em 2017, é uma grande viagem pela história da escrita, da leitura, da ciência, da filosofia, do pensamento e da subjetividade do homem ocidental. A proposta dos dois autores foi ambiciosa, mas, amigos dos livros e extremamente cultos, eles a realizaram a contento, fazendo com que quem se embrenhe pelas 156 páginas do volumezinho não saia incólume, pois com certeza aprenderá algo de novo.

De acordo com Caruso e Moreira, existe uma íntima correlação, ao longo da história, entre a formatação do livro, as descobertas científicas e as visões de mundo (Weltanschauung). Sendo difícil definir se foram as mutações do livro que contribuíram para as mudanças na física, geometria e matemática ou, ao contrário, se as descobertas científicas e as novas formas de pensar é que moldaram os novos livros. Eles dão primazia ao livro, à escrita e à leitura. As metamorfoses no suporte da escrita é que teriam protagonizado o processo, levando o homem a modificar a visão de mundo e a relação com Deus, o cosmos e a natureza. Outra hipótese levantada pelos dois autores é a de uma relação ambivalente, de troca contínua, sem hierarquias.

O longo ensaio dos dois físicos é complexo, contendo em poucas páginas muita informação, principalmente se levarmos em conta as citações e os pés de página. Talvez seja necessário ser físico também para entendê-lo em toda sua profundidade. O que não quer dizer que não possa ser compreendido senão racional, intuitivamente. Caruso e Moreira dizem que a maior invenção do homem foi a escrita, que começou sendo estenográfica, depois se tornou pictográfica, ideográfica, e, por fim, passou a ser fonética, como a conhecemos no mundo ocidental.

Quanto ao suporte do livro, houve vários: pedra, argila, tabuinhas, papiro, pergaminho, papel, telas, computador ou digital. No caso do papiro e do pergaminho, vigoravam os rolos ou volumen, que se abriam bidimensionalmente diante dos olhos dos leitores. Ainda no caso do pergaminho, surgem os codexs ou códices, manuscritos encadernados como cadernos costurados entre si. Pesavam muito. Com o papel, inventado pelos chineses em 105 D.C. e introduzido no Ocidente no século VIII, ficaram mais leves. E após a invenção da imprensa por Gutenberg, surgiram por fim os livros com tiragens elevadas, sendo que o primeiro a ser impresso foi a Vulgata, a bíblia traduzida para o latim por São Jerônimo. Continha os 46 livros do Antigo Testamento e os 27 do Novo Testamento. Era composta, portanto, de 73 livros.

Os códices medievais e livros da passagem da Idade Média para o Renascimento e, posteriormente, para a Era Moderna são tridimensionais. Têm verticalidade ou uma terceira dimensão. Já no caso das telas, viabilizadas após a descoberta do eletromagnetismo e da mecânica quântica, vigora a multidimensionalidade. Para cada mudança de suporte há alterações significativas na Filosofia, na Ciência e na forma como o homem lê o espaço, o tempo, o livro da Natureza, a ordem cósmica e o infinito. Houve épocas de espaço e tempo absolutos e depois do espaço-tempo de Einstein ou da relatividade.

De Platão a Max Plank

Os dois autores vêm vindo devagar na trajetória do livro e nos passos que foram dados pelos filósofos e cientistas para interpretar o céu e a terra, a finitude e o infinito, buscando sempre a maior clareza possível em sua exposição narrativa. Os tempos de Homero são os da oralidade. E os de Platão o da literalidade ou da escrita fonética. A oralidade era mito-poética e a literalidade permitiu a criação da filosofia conceitual-dialética de Platão. Para Platão, o espaço era bidimensional, já que acreditava no mundo sensível ou na Physis, em contraponto ao mundo das Ideias ou mundo das formas geométricas. Ele foi o primeiro a ter um projeto de geometrização da Física, valendo a pena relembrar aqui a relevância do espaço democrático grego, a ágora.

Aristóteles, que sistematizou o conhecimento do mundo helênico, talvez tenha sido o primeiro intelectual a ter biblioteca. Sua biblioteca pessoal, segundo informam Caruso e Moreira, tinha 400 pergaminhos. Seu discípulo Teofrasto teve como ajudante Demetrio de Falero (350 a.C. – 280 a.C.), organizador da Biblioteca de Alexandria, que se tornaria um grande centro de desenvolvimento cultural. Queimada duas vezes - uma delas quando César invadiu o Egito nos tempos de Cleópatra - recentemente foi recriada. Os dois físicos escreveram o seguinte sobre o surgimento das bibliotecas:

“...somos induzidos a reconhecer a biblioteca não apenas como um elemento de preservação de textos, mas, sobretudo, como um instrumento indispensável à reflexão e à sistematização do conhecimento: a própria organização dos volumes, papiros e pergaminhos reflete o modo como se organiza o saber, a cultura e o cosmos. É também, inegavelmente, um espelho de seu proprietário”.

Valorizando a Geometria como Platão, no tocante ao espaço Aristóteles acreditava num topos, que não seria nem uma forma nem uma matéria. Em sua obra “Organon”, ele afirma que concebia o espaço como a soma total de todos os lugares ocupados pelos corpos. É na “Física” que o Estagirista menciona “o lugar”, ou teoria das posições no espaço. Além, estaria Deus, o ato puro ou causa finalis do Cosmos, havendo uma dependência entre o topos e Deus, já que os lugares seriam determinados por desígnios cosmológicos-teológicos . O mundo de Aristóteles, apesar de ser Uno, também seria bidimensional, devido à crença em Deus. A tridimensionalidade seria uma categoria apenas dos corpos e não do espaço.

Com a Filosofia grega sendo escrita em rolos de papiro egípcio ou volumens de pele de animal – o sistema de Platão e a síntese de Aristóteles -, o homem adquire um estado mental literário. Com a chegada dos códices, o estado mental humano passa a ser religioso. Teocêntrico. Isso porque o próprio códice é tridimensional. Tem largura e comprimento, mas também tem altura ou verticalidade, o que permite imaginar a morte de Cristo, sua ressurreição e a existência de um Céu, onde viveriam as almas. E também foi possível conceber um Purgatório. Teríamos então, como descreveu Dante, a Terra e, em contrapartida, o Paraíso, o Purgatório e o Inferno no Céu. O espaço é sagrado e contínuo, com onipresença divina. Não é homogêneo. Já que apenas o sagrado é real, o resto todo é informe ou disforme.

Houve muitas razões para a criação do códice, entre elas o acesso a uma nova forma de leitura. Eis o que afirmam Caruso e Moreira:

“Inventar o códice foi a solução de um problema técnico; apropriar-se dele foi um ato decorrente de uma compreensão diversa da cultura, do texto e do homem, o qual, uma vez realizado, abriu novas perspectivas no modo de escrever e de ler o livro, tendo mudado sobretudo a estrutura e a organização do pensamento”.

Por outro lado, introduziu-se o acesso aleatório ao texto, o que tornou o códice um suporte material privilegiado para as escrituras cristãs:

“Com efeito, no momento em que o códice (codex) substitui o rolo (volumen), no qual é disposto sobre uma superfície dimensional contínua, passa a ser possível o acesso aleatório e a leitura fragmentada. Com as folhas encadernadas em um modo tal que para folheá-las é necessária uma terceira dimensão, o codex se relaciona e nos remete ao problema do espaço e de sua dimensionalidade, e ao significado da verticalidade em nosso mundo e em nosso imaginário”.

Outro fato muito importante vinculado ao novo suporte é que o codex fez com que o livro se tornasse, durante a Idade Média, o símbolo por excelência da relação do homem com Deus. Assim aconteceu com a Bíblia, Livro da Sagrada Escritura, e também com outro livro essencial, o da Natureza. Para São Francisco, na natureza, na simplicidade e na harmonia das coisas se encontrava a beleza da obra divina. De acordo com o escritor inglês Chesterton, “o aparecimento de São Francisco marcou o momento em que os homens puderam se conciliar não apenas com Deus, mas com a natureza e, o mais difícil de tudo, consigo mesmos”.

Caruso e Moreira acrescentam:

“Contemplar a beleza do mundo passa a ser um modo alternativo (e não menos digno) de se chegar a Deus. Assim, São Francisco dá os primeiros passos para uma humanização do Mundo, admitindo que o homem deve se integrar à Natureza, sem se afastar de Deus, preservando-a e admirando-a na sua plenitude. É o momento em que o pintor italiano Giotto di Bondone (1266-1337) será o primeiro a pintar o céu não mais de dourado mas de azul”.

Com o passar do tempo, a formatação interna do codex se afasta dos manuscritos medievais e ganha nova espacialidade. Aos poucos vai surgindo a foliação, a paginação, e a pontuação, que teve início a partir do século IX. Surgem também os sinais fonéticos. A leitura, em vez de oral, poderá ser silenciosa dentro dos mosteiros. Por fim, a imprensa será inventada no século XV, mudando completamente a relação do leitor com o livro, já que este, como já foi assinalado, poderá ser impresso em grandes tiragens, atingindo um público bem mais numeroso. Vale lembrar que o filósofo Francis Bacon disse que as invenções que mudaram completamente a face do mundo foram a imprensa, a pólvora e a bússola.

Enquanto o suporte do livro se modifica, tendo a imprensa traçado uma linha divisória entre o homem da Idade Média e o homem moderno, a Física também vai se alterando, ajudando a criar um ser com nova subjetividade e forma de pensar. Copérnico, ao dizer que a Terra girava em torno do Sol e retirar o homem do centro do universo, promoveu uma revolução. Estabeleceu uma cisão entre a Física aristotélica, que partia do princípio do Uno ou Absoluto, vigente no Céu e na Terra, e a Física heliocêntrica, que admitia o movimento da Terra em torno do Sol. Apenas Newton será capaz de acabar com tal impasse, ao propor a gravitação universal e postular que os movimentos terrestres e celestes eram regidos pelas mesmas leis. Encaminhava-se, com isso, para o fim do estado mental religioso e a chegada do estado mental iluminista ou racional, que seria seguido pelo moderno, o da Revolução Científica, e posteriormente pelo pós-moderno.

Inspirado em ideias copernicanas, o filosofo e escritor italiano Giordano Bruno mencionará a infinitude do Universo e a possibilidade de existir vida em outros planetas. Como sabemos irá para a fogueira devido às suas crenças. Sobre a possibilidade de um mundo infinito, o também filósofo e cientista francês Blaise Pascal dirá o seguinte: “O silêncio eterno desses espaços infinitos me apavora”. Ao lado de Copernico, não pode deixar de ser citado Kepler, que abandonou as esferas celestes e as substituiu por órbitas circulares ou elípticas. Ao tirar a Terra do Centro do Universo, Copernico fez com que o homem sofresse sua primeira ferida narcísica. As outras duas foram abertas no pensamento humano por Darwin e Freud. Darwin, por ter abalado a crença de que o homem era filho de Deus e Freud ao dizer que existia um inconsciente, que o Eu racional era incapaz de dominar. Sendo que mais recentemente apareceu, a partir da cosmologia contemporânea, uma quarta ferida, a de que, integrado ao Universo. o homem não passa de poeira cósmica.

E assim o livro de Caruso e Moreira vai indo, passando pela dissolução do Cosmos, a partir da obra científica de Copérnico, Kepler, Bruno, Galileu e Newton, até os nossos dias. Alexandre Koyré assim descreve a dissolução cosmológica:

“Essa ideia (Cosmos) é substituída pela ideia de um Universo aberto, indefinido e até infinito, unificado e governado pelas mesmas leis universais, um universo no qual todas as coisas pertencem ao mesmo nível do Ser , contrariamente à concepção tradicional que distinguia e opunha os dois mundos do Céu e da Terra. Doravante as leis do Céu e da Terra se fundem. A astronomia e a física tornam-se interdependentes, unificadas e unidas. Isso implica o desaparecimento, da perspectiva científica, de todas as considerações baseadas no valor, na perfeição, na harmonia, na significação e no desígnio. Tais considerações desaparecem no espaço infinito do novo Universo”.

No que diz respeito ao livro, ao espaço e ao tempo, à Física e as visões de mundo, lendo o ensaio de Caruso e Moreira, viajamos ainda pelo desenvolvimento científico do Renascimento; as imagens nos livros impressos e a perspectiva; o Iluminismo e a Enciclopédia de Diderot e Alembert, e finalmente as múltiplas dimensões originadas pela Teoria da Relatividade de Einstein e a Teoria da Mecânica Quântica de Max Plank, que os físicos estão tentando unificar. A descrição do universo digital da Internet começa com a criação do transistor até chegar às telas da TV, celular e computadores domésticos, nas quais a Web e a fragmentação da leitura, através do intertexto, dominam nos tempos atuais o imaginário humano.

Fico por aqui, deixando que o leitor descubra por si mesmo o que há de imenso no pequeno livro dos dois cientistas e pensadores bibliófilos, já que nada se compara à travessia infinita pela terra e o céu, o espaço e o tempo do conhecimento. É como se lêssemos o grande livro do Universo.