Cinema

Divulgação
Credit...Divulgação

A MULA ****

Uma intrépida educação sentimental

Rodrigo Fonseca

Imperdoáveis sejam os pudores morais que andam escanteando a importância estética ímpar de Clint Eastwood por conta de suas posições políticas pessoais conservadoras. Em decorrência de patrulhas ideológicas, “A mula”, um filme memorável, à altura de obras-primas como “Cartas de Iwo Jima” (2006) ou “As pontes de Madison” (1995), foi subestimado nos EUA e ignorado para o Oscar. E, nele, em meio a uma vertiginosa mistura de emoções, com foco na tensão, vemos a atuação mais comovente da (longeva) carreira do astro, hoje com 88 anos.

Mas o troco foi dado: fora da América, esta trama - baseada na reportagem “The Sinaloa Cartel's 90-year old drug mule”, feita para o “The New York Times”, por Sam Dolnick – coleciona elogios e deu a Eastwood a capa da prestigiosa revista “Cahiers du Cinéma”. Nela, a crítica Florence Maillard trava paralelo entre Earl Stone – o papel de Clint, um agricultor falido que se transforma em “vaporzinho” para traficantes mexicanos – e o cinema de Raoul Walsh (1887-1980). A analogia se dá a partir do faroeste épico “O intrépido general Custer” (1941), com Errol Flynn. Como diretor, Walsh desfilou por variados gêneros, como Eastwood, mas impregnava os filões mais populares, como esta citada aventura no Oeste, com um toque de amargura, uma percepção do desespero nosso em relação a impotências e deslizes. Esse é o tema de “The Mule”, produção de US$ 50 milhões cujo faturamento global beira US$ 140 milhões. Stone é um fanfarrão (a interpretação dele tira Clint do arquétipo de durão, esbanjando molejo e fragilidade). No ocaso da vida, ao chegar aos 90 anos, ele percebe o quanto perdeu tempo na relação com aqueles que o amavam. Um convite para entregar drogas, ganhando o que sua horta jamais renderia, parece a chance ideal de compensar com dinheiro aquilo que não ofereceu de afeto. Mas existe o amor e existe a vida, sua inimiga: querer nem sempre é poder. E como “Os Imperdoáveis” - que deu a Eastwood o Oscar de direção em 1993, já deixava evidente: há um limite para o erro e o perdão. Limite que, aqui, o octogenário cineasta desenha desafiando códigos da correção política e arrancando atuações memoráveis de Dianne Wiest (a ex-mulher de Stone) e de Andy Garcia, um chefão memorável. A fotografia de Yves Bélanger (“A chegada”) é chapada em tons ocres, cinzentos, para traduzir o quão grisalha é a ética do mundo cão que produziu Stone.

Roteirista e crítico de cinema

ALITA ****

Tom Leão

Recentemente, vimos com "Máquinas mortais" (produção e roteiro de Peter Jackson), que, só grife não é o bastante para garantir que um filme faça sucesso. O mesmo parecia apontar para "Alita, anjo de combate" (Alita: battle angel), novo filme de Robert Rodriguez que, na verdade, é também, de James Cameron - que produz e é co-autor do roteiro -, e acalentava filmar o mangá há quase duas décadas.

O que faz "Alita" triunfar, além de sua esmerada produção (e um 3D que realmente vale a pena), é um roteiro que mistura bem os déjá-vu das distopias cyber (está tudo lá: de "Akira" a "Ghost in the shell", passando por "Blade runner", "RoboCop" e até mesmo "Rollerball"). Mas, sobretudo, pela incrível caracterização do personagem principal: misto de atuação (Rosa Salazar, ótima) e tecnologia de captura de imagem, a cyborg Alita é viva, vibrante, pulsante e, sobretudo, muito simpática. É difícil não se encantar por ela, para além dos ótimos efeitos especiais e de seus destacados olhos. É um tipo formidável. E com alma.

Assim, fica fácil acompanhar a sua história (foi achada num ferro velho, por exímio "médico" de andróides, espécie de Gepetto-Frankenstein, feito por Christopher Waltz), num século 26, num lugar com ares de favela, Iron City, onde todos sonham em subir para Zalem, cidade flutuante. Alita busca saber quem é, e para o quê foi designada. A jornada inclui romance, sensacionais sequencias de combate sobre patins e algumas cenas fortes, numa aventura que nunca deixa a plateia entediada.

Para quem reclama de que falta novidade nas telas, "Alita" traz frescor dentro do já visto. Tem questionamentos filosóficos e ação na medida certa. É a melhor adaptação de um mangá (como são chamados os quadrinhos japoneses) para live action que já vimos no cinema.

Jornalista

PODERIA ME PERDOAR? ***

Uma ode aos desvalidos

A escritora especializada em biografias Lee Israel viu sua fonte secar e a relação com sua editora azedar no final dos anos 80, sem conseguir emplacar nenhum projeto e repleta de dívidas. Ao perceber o interesse de antiquários por escritos de grandes nomes da literatura, Lee passa a forjar materiais de nomes como Dorothy Parker e Noel Coward, em uma sequência de golpes ao lado do amigo Jack Hock, que vão mostrar a essas duas almas perdidas uma possibilidade de sobrevivência.

O segundo filme da cineasta Marielle Heller (do ótimo 'Diário de uma Adolescente') aos poucos vai deixando as amarras de uma típica biografia para encontrar sua vocação ao traçar dos mais pungentes retratos sobre desvalidos emocionais da temporada. Em soberbas interpretações de Melissa McCarthy e Richard E. Grant, Lee e Hock são duas das figuras mais melancólicas do cinema em 2018, que tentam subsistir com as migalhas amassadas que lhes restaram. Ao encontrarem um ao outro, nasce mais do que uma dupla de vigaristas, mas uma amizade entre dois seres que não tinham mais ninguém ao lado.

Tanto Melissa quanto Grant retratam a solidão e o afastamento que o individualismo encorajado pela própria sociedade americana há várias décadas acabou por produzir figuras trágicas e carentes em todas as esferas, como a escritora e seu improvável amigo. Ambos indicados ao Oscar junto ao roteiro adaptado da própria autobiografia de Lee, a prestigiada comediante e o britânico veterano estão no ponto máximo de o o suas carreiras e conseguem driblar as armadilhas típicas que o gênero acaba escorregando pelo fim do filme. A trilha marcante do irmão da diretora Nate ajuda a contar essa história muito triste, que retrata o esfacelamento do 'american way of life' com muito sarcasmo e lágrimas sinceras. (F.C.)

MINHA FAMA DE MAU **

O doce Tremendão

Ana Rodrigues

Com 1 metro e 93 de altura, um jovem tijucano conquistou meninas e amantes da música nos anos 60. Grande por fora e um coração enorme por dentro, mas acima de tudo, um dos maiores artistas da música popular brasileira. Em “Minha Fama de Mau", de Lui Farias, a proposta é revelar os primeiros passos até a glória do ídolo da juventude, Erasmo Carlos (Chay Suede). O longa destaca a vida pobre de um artista que supera o contexto de poucas oportunidades por acreditar no seu talento. Ele compartilha o sonho com o amigo Tião (Vinícius Alexandre), que anos depois ficaria famoso como Tim Maia. Erasmo se divide entre pequenas delinquências e o capricho de manter num caderno as letras dos Beatles e curtir Elvis, Bill Haley e Chuck Berry. Um dia, ele encontra um cantor iniciante chamado Roberto Carlos (Gabriel Leone) e logo se tornam parceiros e amigos.

O longa reconstitui com capricho a época, mas se perde em muitos recortes de arquivo para dar conta do período inicial da carreira do cantor até chegar à explosão do movimento Jovem Guarda catapultado pelo programa na TV Record. Erasmo, Roberto e Wanderléa (Malu Rodrigues) são escalados para comandar o show que revelou a capacidade brasileira de fazer rock em plena ditadura militar.

O filme resulta apressado no registro de momentos marcantes, mas tem o mérito de acertar na escalação do trio principal. Em especial, no reencontro dos eternos amigos e na delicadeza de Chay e Malu cantando “Devolva-me”. Os pontos altos ocorrem quando a música toma conta e lembramos o valor do compositor popular na doçura do grande Erasmo.

Membro da ACCRJ

MADE IN ITALY **

Neorrealismo na existência cotidiana

Tony Tramell

O filme é inspirado no álbum homônimo do roqueiro Luciano Ligabue, que também e diretor e roteirista. Com alguns longas no currículo, a escolha de Luciano é ousada. A trama gira em torno da redenção de um homem comum, cuja vida não conta com acontecimentos extraordinários – como grande parte da humanidade.

Riko (Stefano Acorsi) é um trabalhador de uma fábrica de cidade pequena, ganhando pouco fazendo salame (mas ainda tendo um emprego ao contrário de diversos amigos cinquentões), vendo sua aposentadoria cada vez mais distante e uma grande fuga de italianos em busca de oportunidades fora do seu país. Casado com Sara (Kasia Smutniak) e com um filho prestes a ser o primeiro a ir para uma universidade, faz uma escapada para Roma. Um passeio com amigos que termina no meio de um protesto, onde enfim coloca sua raiva e frustrações para fora.

O resultado deste ato, muda todo o olhar do filme, levando Riko a uma tentativa de recuperar seu casamento e buscar por uma oportunidade diante de uma adversidade que irá surgir. O carismático Acorsi e tempestiva atuação de Kasia somados a bela fotografia do filme são os destaques dessa história de alienação, redenção e esperança. “Made In Italy” flerta com o neorrealismo e apresenta uma vida ordinária nua e crua, além de uma Itália mais próxima do Brasil do que se pode imaginar.

Assistente de direção e jornalista

A PEDRA DA SERPENTE **

O esforço que veio do espaço

Frank Carbone

Fernando Sanches é um diretor estreante em longa metragem, mas com 20 anos de experiência em curtas e publicidade. Isso é percebido em 'A Pedra da Serpente', sua estreia no circuito com um tema tão incomum ao nosso cinema quanto a ficção científica ligada à ufologia, principalmente em relatos reais que envolvem a cidade de Peruíbe, no litoral paulista. Não falta ao filme uma certa estranheza necessária ao subgênero, que envolve a atmosfera e provoca no espectador um constante clima de dúvida.

Essa pulga atrás da orelha também é provocada por uma utilização adequada da utilização de luzes e cores no filme, que batem não apenas com a proposta mas também com a narrativa, e acima de tudo com uma direção de atores muito precisa, nivelando a experiência pro alto no elenco encabeçado por Claudia Campolina (e que tem na participação de Gilda Nomacce a experiência necessária em padrão de qualidade). Esses elementos fazem a diferença no quadro final.

Os extremos da produção - tanto a abertura quanto o encerramento - são pontos altos que impressionam diante do todo, mas o fato de ser uma produção de baixíssimo orçamento rodada em uma semana não deveria ser uma questão para a utilização da trilha sonora, por exemplo, que tira o filme do lugar do bizarro para uma ideia mais dramática dos eventos. Mas também fica o esforço de Sanches em manter sua visão criativa e as características de um cinema que ele quer trazer, que é inexplorado na nossa filmografia.

Membro da ACCRJ

AS INESES **

Preguiça e previsibilidade travestidas de humor

Ana Carolina Garcia

Troca de bebês sempre foi um assunto discutido em produções de viés dramático, mas o diretor e roteirista Pablo José Meza, de “A velha dos fundos” (La vieja de atrás – 2010), optou pela comédia quase pastelão em “As Ineses” (Las Ineses – 2016). Contando com os brasileiros André Ramiro e Rafael Sieg no elenco, o filme mostra a dúvida da paternidade sob a ótica de duas famílias vizinhas e de mesmo sobrenome, Garcia, cujas esposas vão juntas para a maternidade, onde recebem uma menina loira e outra morena.

Com estética de TV, o longa se desenvolve em ritmo acelerado, atropelando a trama e as mudanças ocasionadas pelo tempo. Isto pode ser observado inclusive na caracterização, pois nove anos após a confusão no hospital os adultos continuam idênticos. Não há preocupação com o processo de envelhecimento dos personagens nem com o figurino, somente com suas reações numa época em que testes de DNA não eram acessíveis a todos.

“As Ineses” levanta a bandeira de que pais são aqueles que criam e dão amor às crianças, independente dos laços de sangue, mas o faz de forma preguiçosa e previsível.

Membro da ACCRJ



Melissa McCarthy e Richard E. Grant
Earl Stone, o aviãozinho do tráfico vivido por Eastwood, tenta ludibriar um policial
Alita
Chay Suede encarna o irresistível Erasmo Carlos
Gente como a nossa gente
Claudia Campolina e Ricardo Gelli  
"As Ineses" têm estética de TV
Gente como a nossa gente


Utilizamos cookies essenciais e tecnologias semelhantes de acordo com a nossa Política de Privacidade.
Ao continuar navegando, você concorda com estas condições.
Saiba mais