Maculado pelo fracasso, assolado pela honra

Ainda inédito no Brasil, ‘Todos já sabem’ enfim ganha data de estreia, à força do carisma de seu elenco estelar

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Ganhador de dois Oscars de melhor filme estrangeiro - por “A separação”, em 2012, e por “O apartamento”, em 2017 -, o iraniano Asghar Farhadi enfrenta hoje um hiato autoral na ressaca pela fria recepção a um melodrama concebido com todos os ingredientes do sucesso (o trio Penélope Cruz, Javier Bardem e Ricardo Darín em seu elenco é só o começo), mas que bateu na trave do gosto de público e crítica. O projeto em questão é “Todos já sabem”, filme falado em espanhol que, nove meses após ter aberto o Festival de Cannes, segue inédito no Brasil. Apareceu agora uma data para sua estreia em solo nacional: 21 de fevereiro. Trata-se de um experimento autoral com indisfarçável vocação popular que nasceu dos esforços do produtor francês Alexandre Mallet-Guy (de “Sono de inverno”) para internacionalizar a estética que Farhadi começou a esculpir no Irã.
Havia uma ideia de que ele filmasse uma histórica com foco em Berlim, mas a Espanha logo apareceu como foco para esta produção de €10 milhões sobre um ex-casal fraturado por conflitos de classe social que se reencontra, anos depois, quando os dois estão casados e a filha dela (Penélope) desaparece. Esperava-se que esse enredo, que une Marx, abraços partidos, um cenário idílico e uma reflexão moral sobre o dever rendesse um fenômeno de bilheteria (esta não passou de US$ 13,8 milhões) ou um chamariz de Oscars. Mas não aconteceu nem um, nem o outro, o que não tira de o brilho e a potência deste longa com pecha de fracassado.
“Gosto de assumir locações ancestrais, com o peso do tempo, como epicentro das histórias que filmo e, aqui, há uma casa no interior da Espanha. Fiz este filme para mostrar que, embora alguns prédios sejam tombados e outros sejam reerguidos, mesmo nos rincões do interior de um país ibérico, as tradições mais ancestrais ficam intactas, mesmo aquelas que nos cerceiam, ou que levam à intolerância, como a honra, que é o motor dos conflitos aqui ou em qualquer seio familiar, do Irã ou do Ocidente”, disse Farhadi ao JB, quando o projeto era finalizado.
Com a fama que alcançou a partir da conquista do Urso de Ouro, em 2011, por “A separação”, Farhadi conseguiu atrair o casal Penélope e Bardem para o projeto, mesmo sem falar nada em espanhol. “Foi muito curioso o processo dele, pois ele se mudou para Madri, passou dias por lá, observando como nós, espanhóis, pensamos, e, só então, começou a lapidar o roteiro, a fim de trazer uma vivência, um laboratório”, disse Penélope em Cannes. “Ele ficava nas filmagens como uma esponja, absorvendo nossa realidade. A gente ficava curioso de saber como alguém de fora seria capaz de dominar nosso idioma. Tinha sempre um professor do lado. E como ele dorme pouco, passava as noites a decorar cada fala do roteiro. Ele sabia nossos diálogos na íntegra, decorados com perfeição. É um diretor humilde, que faz perguntas, que troca”.
“Este é o filme mais espanhol que um estrangeiro poderia fazer na Espanha, pois ele quis ver como a gente entende nossa terra, nossos valores”, completou Bardem, que entra em cena no papel de Paco, dono de uma pequena vinícola. “A honra é uma desculpa para muitos crimes que são cometidos pelo mundo. Mas Paco é guiado por um outro sentimento: ele sacrifica sua paz em nome da generosidade”.

Fotografado pelo habitual parceiro de Pedro Almodóvar José Luis Alcaine, “Todos lo saben” (título original) tem como seu eixo um rapto. Em visita à sua família na Espanha, depois de anos morando na Argentina, Laura (Penélope) tem sua filha adolescente sequestrada. Seu marido, o ex-alcoólatra (salvo do vício por Deus) Alejandro (Darín), ficou por aqui pela América do Sul. Resta a ela contar com um ex-namorado do passado, hoje casado: Paco (Bardem), que comprou terras outrora pertencentes ao pai de Laura. A entrada de Darín foi consequência do sucesso do longa argentino “Relatos selvagens” (2014), do qual ele é parte do elenco. Seu nome é hoje um sinônimo de sucesso na Europa.
“Asghar me deu um personagem que tem Deus como seu melhor amigo. Eu não sou um sujeito que crê em religião, mas, na visão de Asghar, a fé é a única força capaz de preservar Alejandro das crises econômicas que assombram os personagens”, diz o muso da Argentina ao JB. “A fé aqui é um modo de preservação da sanidade, num mundo no qual o amor é ligado à ruína”.
*Roteirista e crítico de cinema