'Mário matou a Igreja, mas não conseguiu matar Deus'

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Entre questões religiosas, políticas e comportamentais, o professor de teoria literária explicou parte da influência e da importância das trocas de cartas entre Mário de Andrade e Alceu Amoroso Lima, ressaltando ideias convergentes e divergentes do autor de "Pauliceia Desvairada" (1922), "Macunaíma" (1928) e "O pensamento modernista" (1942) com o de "Elementos de ação católica" (1938), que, por décadas, também foi colunista do JORNAL DO BRASIL.

JORNAL DO BRASIL - Quais são os principais pontos de convergência entre Alceu e Mário marcados na correspondência e na amizade entre eles?

LEANDRO GARCIA - O interesse pela literatura e pela crítica literária e de ideias em geral; a certeza de que a literatura brasileira precisava mudar, evoluir, tornar-se moderno, dialogando com as evoluções literárias que vinham da Europa, pensar um "projeto cultural de Brasil" e a grande amizade e respeito mútuos que um sentia pelo outro, pois mesmo divergindo. Mário, nos seus artigos de crítica literária, ele sempre dizia que a inteligência arguta de Alceu era necessária à inteligência nacional.

E quais as principais divergências?

Nos anos 1920, a divergência principal era a opinião de Mário de que Alceu não entendia de poesia, sendo um excelente crítico de prosa e narrativa em geral, mas não de poesia. Já no final dos anos 1930 e, principalmente, nos anos 1940, foi a questão religiosa: Mário fora diretamente atingido pelo Estado Novo quando exonerado da chefia do Departamento de Cultura de São Paulo e substituído por um interventor, o que agravou sua depressão no chamado "exílio no Rio", entre 1938 e 1941. A Igreja Católica foi a primeira instituição a apoiar o Estado Novo e Alceu era o maior e principal intelectual leigo católico, então a associação foi instantânea. Inclusive, em 1939, Alceu era o reitor da antiga Universidade do Distrito Federal, no Rio e foi capaz de convencer [Getúlio] Vargas e [Gustavo] Capanema a extingui-la pois, segundo ele, estava "infestada de comunistas". Mário não aceitou esta situação e reagiu contra ela nas últimas cartas, as mais violentas entre eles.

Quando o Mário de Andrade se refere à "liberdade de poesia" dele, em contraposição a "'verdadeiros' poetas", como Drummond e Manuel Bandeira, ele fala de normas técnicas?

Mário não era contra o verso metrificado, pois ele desenvolveu um padrão de poesia em conciliação com a tradição. Como Mário sempre implicava com as análises de poesia feitas por Alceu, qualquer coisa era motivo de confusão.

A essa alegada falta de ação dos católicos citada por Mário de Andrade tem algo a ver com o que levaria ao avanço atual das igrejas neopentecostais?

Era um pouco diferente, pois o que Mário não aceitava era o avanço intelectual, cultural, social e comportamental - no mundo todo - e o Brasil sempre numa posição de atraso. Para ele, Deus estava acima das religiões, pois estas pressupõem cânones, doutrina etc., impossibilitando o livre pensamento. Mário muito provavelmente era gay, e isso certamente era um drama existencial na sua vida que tinha, certamente, um desdobramento religioso de culpa etc. Daí esta dicotomia dele em relação à religião, especialmente a católica, a única que ele realmente considerava. Mário matou a religião, a Igreja, mas não conseguiu matar Deus - daí o seu drama.

Era comum, na época, um crítico como ter tanta amizade com escritores?

Sim era comum, até mesmo gerando inúmeras brigas e desentendimentos entre críticos e autores. Como a crítica literária, no Brasil, era feita apenas na imprensa através de alguns poucos críticos, era comum o contato dos autores com aqueles. No caso de Alceu, especificamente, todos que publicaram nos anos 1920 e 1930 mandaram livros pra ele e muitos trocaram quantidades imensas de cartas. A correspondência era uma forma de construção de pensamento, um laboratório de ideias, não era apenas troca de notícias e fatos.

Em que pontos a correspondência dele com autores ajuda a explicar aspectos da história política e cultural brasileira no século 20?

Em muito. O arquivo hoje salvaguardado no Caall (Centro Alceu Amoroso Lima para a Liberdade) mantém todo o arquivo e a biblioteca que pertenceram a Alceu, é formado por 32.450 cartas que ele recebeu ao longo da vida! Sim, é este número mesmo da sua correspondência passiva, ou seja, a que ele recebeu. Como Alceu não deixava carta sem resposta, é certo que ele respondeu a todas, mantendo uma verdadeira rede epistolar com gente do Brasil e do exterior, pensando e agindo e criando nas suas cartas. Não foi apenas com escritores, mas com políticos como Gustavo Capanema, Getúlio Vargas, Carlos Lacerda etc.; com educadores como Anísio Teixeira, Fernando de Azevedo etc.; historiadores como Sérgio Buarque de Hollanda etc. - formando um verdadeiro painel de estudos brasileiros através da sua correspondência e das suas crônicas publicadas na imprensa.



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