Força e gentileza, virilidade e veludo

M agnífico. este é o adjetivo adequado para qualificar the storyteller , o álbum de randy weston e seu african rhythms sextet, gravado ao vivo no dizzy’s club de nova york, há um ano, e que a motéma vem de lançar. o cd de 11 faixas – três das quais com uma nova versão já antológica da african cookbook suite , de cerca de 20 minutos – antecipa, também, as comemorações do 85º aniversário do pianista-compositor, em abril próximo. e registra o canto de cisne do trombonista benny powell, que morreu em junho último, aos 80 anos. os demais integrantes do sexteto são os fiéis talib kibwe (sax alto, flauta), alex blake (baixo), neil clarke (percussão), mais o notável baterista lewis nash.

O poeta langston hughes (1902-67) assim sintetizou a arte de weston, nas notas do lp little niles (1958), bem antes da fama conquistada pelo músico, a partir de 1960, quando gravou uhuru afrika : “quando ele toca, uma combinação de força e gentileza, virilidade e veludo, emerge do teclado, num fluxo-refluxo sonoro tão natural com as ondas do mar. e como ondas que se quebram na irregularidade de um penhasco, há uma grande variedade de som musical por sobre o pulsar constante de uma maré rítmica”.

Esta arte tornou-se ainda mais rica e fluente com o correr dos anos, como atesta the storyteller , que começa com o piano solo de weston, ao mesmo tempo majestoso e percussivo, em chano pozo (4m) – homenagem ao percussionista que ajudou dizzy gillespie a introduzir no jazz o condimento afro-cubano. african sunrise (9m48) tem também alta voltagem rítmica, incrementada pelo líder e neil clarke, e culmina num solo de quase quatro minutos de kibwe (sax alto), que cita manteca e hot house .

A suíte central do cd tem três partes: piano solo em tehuti (2m34); jus blues (11m35), o ápice do concerto, com longo solo de de powell, e uma aula de percussão do professor nash; bridge (4m30), na qual blake exibe sua incrível técnica de slapping bass enquanto entoa um canto-chão gutural. em sh rine (11m35), realce para os solos “em feitio de oração” de kibwe (flauta) e de powell, por sobre um ostinato percussivo próprio de um ritual. o pianista-compositor reverencia mestre thelonious monk em loose wig (7m20) e no complemento wig loose (2m30), em feérica batida bem africana. hi-fly (9m45) – o mais conhecido tema de weston, escrito em 1958, dois anos antes de sua longa estada no marrocos – recebe tratamento mais romântico, porém rico em trouvailles harmô nicas. fly hi (3m45) é uma animada coda da faixa anterior.

O fecho do álbum é love, the mistery of (3m47) que – segundo o próprio weston – é “uma tentativa de capturar os espíritos dos anciãos, que tinham os segredos do ritmo e do som”.