Bordadeira de emoções

A atriz sara antunes faz uma jornada sentimental no palco e se expõe ao transformar palavras em imagens h á algo datado neste desabafo poético de sara antunes, que pode ser visto no mezanino do espaço sesc, em copacabana, pelo menos do ponto de vista formal. uma vaga lembrança da cultura “paz e amor” sobrevoa os sentimentos oníricos de uma mulher que se apropria da construção da identidade existencial através das palavras. o veículo desta arquitetura emocional é um pai que ensina, em aprendizado afetivo, possibilidades que podem ser atribuídas à palavra para encontrar-lhe significados múltiplos. desenhar com voz interior um rendilhado de emoções, como a perda da ascendência numa tessitura de atitudes que diminuam a dor que se segue, é transformado em representação de um sonho.

Nesta materialização teatral, sara antunes, com o apoio de analu prestes, concretiza espaço abstrato de devaneios para expressar a extensão de intimidades. a artista plástica criou instalação cenográfica, na qual os detalhes são bordados com minúcia de artesã. um manto-véu, com costuras que fixam, em linhas coloridas, palavras soltas, reproduz no tecido as intenções da voz. esse cenário-instatalação é essencial na concepção do monólogo, como se fosse a continuidade visual de sonoridades, enquanto a intérprete se transfigura em bordadeira de emoções. vera holtz procura estabelecer relação mais direta com a plateia, constantemente solicitada a dar as mãos à atriz nesta jornada sentimental.

A diretora lança essa ponte móvel ao outro, da mesma maneira que sara antunes se deixa revelar através de sua sensibilidade. no texto e na interpretação, sara se expõe no modo como “ouve inexistências”, e como envolve as palavras em imagens na tentativa de vestir seus sonhos.

Em paz e com amor.