A saga do açucar

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AR TIGO

A saga do açúcar

Fátima Quintas

Omeu interesseno estudo da civiliza- ção doaçúcar ad- vém do entusias- mo de compreender antropo- logicamente o seguinte enun- ciado: “Quemsomos sós?”. Uma curiosidade que surgiu nainfância, quandoavistava o extenso mar de canaviais da Zonada Mata de Pernambu- co, a lembrar João Cabral de MeloNeto: “Vozsemsaliva da cigarra,/ dopapel seco que seamassa”. Venhoes- crevendo de forma recorren- tesobre otema,razão doli- vro

A saga do açúcar

, pesqui- sa de longos anos que reme- teauma análisedaorigem da nossa formação cultural e sociológica. Da história dos ciclos econô- micos do Brasil – pau-brasil, café, algodão,cacau, borra- cha –o açúcarrepresenta aquele que perdurousem in- terrupções a partir do início da colonização até nossos dias. O Nordeste foi onde mais prosperou o cultivo da cana em razãodo solo,omassapê, eda localização, pontomais próxi- mo da Europa.As condições ecológicas provocaram um crescimento desmedido da

sac - charum officinarum

. E o açúcar superou em importância a ma- deira de tinta que vinha dando visibilidade econômica ao Bra- sil na Europa. A fragrância da sacarose ex- pandiu-se por outras regiões, consolidando abase deuma economia monocultora, lati- fundiária, patriarcal,oligár- quica, aristocrática e esc ravo- crata. O complexo da cana não se traduz apenas no plantio so- bre um solo propício à fecun- dação. Vai mais além, pois ge- ra uma estrutura cultural e so- ciológica condizenteaos re- clamos dadinâmica agrária. Machado de Assis já anuncia- va que o doce redunda em um princípio social; Joaquim Na- buco sentia no ar de Pernam- buco o aromade mel; Tobias Barreto apontava que dos en- genhos emergia uma socieda- de paramentadana açucaro- cracia; enquanto padre Antô- nio Vieira afirmava que o Bra- sil foi principalmente o Nor- deste, e o Nordeste foi o açú- car, e o açúcar foi o negro. O livro

A saga do açúcar

tran - sita pelaperspectiva históri- ca, antropológica e sociológi- ca dos canaviaisde Pernam- buco, traçando um modelo de sociedade que nãose fixou apenasno Nordeste,masse alongoupor todoo Brasilco- mo referência deum cenário vitoriosamente hegemônico. Bom lembrar que a capitania de Pernambuco firmou-se nos séculos 16 e 17como a maior produtora de açúcar do mun- do, espalhando o ouro branco pelaEuropa, entãosedenta dasacralização doproduto em alta. O açúcar despontou inicialmente nosboticários paraemendar-se àgastrono- mia no século 14, subscreven- do-se definitivamentenos requintes da culinária uni- versal. E dou-lhe um doce se você não concordar que o sa- bor da

saccharum officina- rum

detém umpoder dese- dução inigualável, impelin- do homens e mulheres à ten- tação do pecado da gula.

Pesquisadora da Fundação Gilberto Freyre. Lança hoje na Casa Brasil, durante a Fliporto de Olinda, o livro

Caminhos do açúcar

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