Contracena

Macksen Luizmacksenrgmail.com

CRÍTICA

| HAIR

continua

A

o assistir à versão de CharlesMöeller eCláu- dioBotelho paraomu- sicalde GeromeRagni,James Rado e Galt Macdermot, mais do que voltar para o mundo dos anos60, quandoessacelebra- ção do fenômeno hippie estreou na Broadway, podem-se avaliar as qualidades intrínsecas desta vivência coletivade umauto- pia. Osexo livre, asdrogas li- beradoras e a rejeição dos con- dicionamentossociais, aolado da oposição às guerras, trans- formaramesse movimentoso- cioexistencial embandeira de mudanças, que viriam a ser de- glutidas pelosavassaladores mecanismos do consumo. O mu- sical, que causou impacto quan- do estreou,em plenaeferves- cência do hippismo, causava es- cândalo pela nudez frontal, pe- lo culto ao psicodelismo e pelos slogans (

faça amor, não faça a guerra

). Quatro décadas depois, com os códigos sociais bem me- nos restritivos, e a violência glo- balizada,

Hair

nãose reduz a uma reportagem musical sobre aépocae seuscabeludoseco- loridos contestadores. A trilha, apesar de muito conhecida, e a trama, bastantereferenciada aoperíodo,se mostramvivase pulsantes, driblando o desgaste do tempo e as mudanças de cos- tumes. A encenação de Möeller e Botelho mantém a estrutura original, mas consegue extrair doque sepoderiaconsiderar “de época” a força dramática e a carga espetacular que o rotei- ro conserva deorigem. O mu- sical,nesta montagem,falade seu tempo, de um tempo mar- cadopor signosmuitoexplora- dos, mas vibra na frequência da atualidade, comsinais daper- manência do que há de bom des- de sua estreia. O sopro de revitalização se de- senha também naquilo que a dupla tão bem executa, que é a escolha dos elencos de seus mu- sicais. A perfeita adequação en- tre os diversostipos e persona- gensse completapelopreparo técnico de cada um, prevalecen- do a qualidade vocal, coreográ- fica ea unidadeinterpretativa de atorespreparados paraen- frentar eresponder àcomple- xidade do que lhes é exigido. A qualificação do grupo e a sua juventude permitem que a oxi- genação que osdiretores insu- flaram na cena alcançasse ain- da melhor realização no palco. A direção musical e os arranjos de Marcelo Castro rejuvenes- cem o já tanto ouvido, e renova a envolvente sonoridade da tri- lha. O cenário de Rogério Fal- cão,com traçospsicodélicose armação de ferro, sugere am- bientação quente para o galpão que abriga os hippies. Os figu- rinos de Marcelo Pies seguem a estéticados jovensdomovi- mento, acrescentando ar orien- tal e cores ainda mais fortes às vestes dos ripongas. A destacar a iluminação de Paulo César Medeiros, ovisagismo deDu- du Meckelelburge oirrepre- ensíveldesenho desomde Marcelo Claret.E, umavez mais, ClaudioBotelho encon- tra a transcrição adequada das letras para o nosso idioma. A unidade conseguida com o elenco, não permite que se apontem nomes, jáque os 30 atores correspondem no palco à justeza das escolhas nos tes- tesa queforamsubmetidos para aseleção. Cantam,dan- çame atuamcomvitalidade, contribuindo, decisivamente, para revigorar e atualizar

Hair

,sintonizado namesma carga de empenho e rigor que os diretoresimpuseram àto- talidade da montagem.

Como driblar as mudanças de hábito

Apesar da trilha, muito conhecida, e da trama, bastante ligada ao período, o musical se mostra vivo e pulsante